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Autor: Teresa Mascarenhas Tiger Ebooks |
Você sabe o que é um Ebook? É um livro que você escolhe, envia a sua encomenda pelo correio juntamente com o respectivo pagamento, e recebe o livro por Email, através da Internet. Os Ebooks são uma forma que alguns escritores encontraram para divulgar a sua obra, e de possibilitar a sua leitura por um preço muito inferior ao de um livro encadernado, comprado numa livraria. A ideia surgiu nos Estados Unidos, e neste momento todos os dias são enviados milhares de Ebooks através da Internet pelo mundo inteiro. Na Tiger Ebooks encontrá livros sobre os mais variados temas, sejam quais forem os seus gostos literários. De qualquer forma, não deixe de imprimir este catálogo, e ler a sinopse e o excerto das obras que pretende encomendar. Assim saberá exactamente o que está a comprar. Depois, bastará enviar pelo correio (correio registado, recomenda-se) a sua encomenda, acompanhada do respectivo pagamento que poderá ser um cheque sobre um Banco Português, à ordem de Tiger Ebooks, ou em dinheiro, notas embrulhadas num papel escuro, num envelope bem fechado. No mesmo dia em que a sua encomenda chegar, os seus Ebooks ser-lhe-ão enviados por correio electrónico. A sua encomenda deverá ser enviada para a morada que encontrará no final desta página. Por favor escreva o título das obras pretendidas em maiúsculas bem legíveis. Também poderá imprimir a página 2, assinalar as obras pretendidas, e enviar essa página pelo correio acompanhada do respectivo pagamento.
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Neste momento quase todos os Ebooks constantes deste catálogo são de autoria de Teresa Mascarenhas, um escritora portuguesa que não sofre de complexos de vedetismo, nem faz nada para "aparecer", mas que nos últimos anos já recebeu oito prémios literários, assinalados com asteriscos a vermelho* Dentro de dois meses teremos disponíveis mais uma dezena de títulos, desta e de vários outros autores. Se você é um autor de língua portuguesa ou inglesa, sinta-se à vontade para contactar connosco. Tiger_Ebooks@hotmail.pt
Imprima esta página, assinale as obras que pretende de forma clara, e envie com o pagamento. Esta é a forma mais fácil de você fazer a sua encomenda.
Eu,
Lourenço, Andarilho da Vida |
Os Telles da
Gama, os Mascarenhas... |
Em Nome do
Amor |
A Homossexualidade Feminina |
Novos Contos
de Cantuária |
As Práticas
do Ocultismo |
Go for it!
(oferta) |
deve escrever: Estas são as obras que pretendo. Junto envio o respectivo pagamento. Este é o Email para onde pretendo que os meus Ebooks me sejam enviados: Esta é a morada para onde envio a minha encomenda: Tiger Ebooks Av. Brasil, 27 A 2735 S. Marcos Portugal TEMAS HISTÓRICOS
**Eu, Lourenço, Andarilho da Vida - Teresa Mascarenhas |
Uma
entrevista virtual com Salazar |
HISTÓRIAS NO FEMININO
|
OBRAS DE CONTEÚDO HOMOSSEXUAL
Em Nome do
Amor - Teresa Mascarenhas |
O quotidiano
de dois irmãos, ambos homossexuais |
A
Homossexualidade Masculina - Teresa Mascarenhas |
A
Homossexualidade Feminina - Teresa Mascarenhas |
PROSA POÉTICA
*Rapsódia em Technicolor - Teresa Mascarenhas |
TEMAS RELIGIOSOS
As Pontes
que nos unem - Ana Macedo e Sousa |
Amai-vos Uns
aos Outros - Teresa Mascarenhas |
A palavra
aos outros grupos religiosos existentes em Portugal |
OUTROS TEMAS SOCIO-CULTURAIS
O Racismo -
Teresa Mascarenhas |
O Mundo da
Moda - Teresa Mascarenhas |
Manual de
Boas Maneiras |
CATÁLOGO DETALHADO
** Eu, Lourenço, Andarilho da Vida
Teresa Mascarenhas
Romance, 1990, Edições Escritor
Publicação Recom. - Prémio Revelação APE 1990
Menção Honrosa - Prémio Alves Redol 1990
Apresentação com texto introdutório de João de Melo
Seleccionado para as Bibliotecas Gulbenkian
sinopse
Um rapaz de pé descalço, Lourenço de seu primeiro e único nome, nascido em
Bordéus no ano de 1772, a determinada altura resolve viajar até Paris com duas
moedas de ouro cosidas nos fundilhos das calças. Chega a Paris poucos dias após
a tomada da Bastilha, e conta-nos então uma sua visão muito particular da
Revolução Francesa. Vende laranjas no mercado, em seguida faz-se marinheiro e
contrabandista, vai num pequeno barco até ao Brasil, regressa a Paris em pleno
Terror, faz-se criado de um médico-alquimista-bruxo, e após uma desdita amorosa
alista-se nos exércitos de Napoleão. Vem a Portugal integrado no exército de
Soult, em seguida regressa a Paris para logo partir para a Rússia, integrado no
chamado Grande Exército do Império.
crítica
"(...) A Autora junta a simplicidade ao gosto e ao ritmo dos velhos
contadores de histórias. E acrescenta a isto um estilo sóbrio, preciso,
essencial."
João de Melo
"(...) Impõe-se a leitura atenta desta escritora que, apesar de estreante,
se revela desde já com uma segurança e uma maturidade indiscutíveis.
Alípio Ferreira, A Capital, 02.04.91
"(...) Curiosa novela de uma escritora ainda em princípio de carreira, a
merecer atenção."
Maria Estela Guedes, Marie Claire, Novembro de 91
"(...) A Autora aparece na narrativa portuguesa com uma vitalidade que
merece os maiores incentivos."
D.S.Bruno, Diário de Notícias, 17.06.91
"(...) Um género que se está a impôr e a aliciar a comunidade literária: a
estória. Vence pelo engenho do imaginário. Assim o saiba apreciar quem lê.
João de Mancelos, Letras & Letras, 16.10.91
excerto
Até que veio a noite do grande temporal. Sentimo-lo chegar como se de um sopro
gelado de morte se tratasse. O mar estava negro e, em vez do seu cantarolar
alegre das tardes de calma, rugia e roncava enquanto a chuva fortíssima
fustigava com uma fúria tremenda o casco, as velas que imediatamente recolhemos,
e os nossos corpos encharcados que lutavam num esforço sobre-humano para
recolher cabos, adriças e tudo o mais. Subitamente as vagas começaram a crescer,
daí a pouco já galgavam o convés de um lado ao outro, os porões começaram a
encher-se de água, e não havia braços que a baldeassem com a rapidez necessária.
Por um momento pensei que toda aquela madeira iria apodrecer, isto é, se
tivéssemos a sorte de não afundar. A certa altura vi a cabeça de um dos
marinheiros mais velhos a bracejar e a ser arrastado borda fora por uma onda
muito alta, e logo em seguida o mastro pequeno, que tinha a grossura do meu
braço, partiu-se em dois, como se fosse o ramo mais fino de uma árvore pequena e
seca.
O céu também estava negro, com um brilho amarelado, não se via a lua nem se viam
as estrelas, e somente de cada vez que era rasgado por um raio, durante um breve
instante adquiria uma cor mais clara, uma cor que não saberei descrever, uma cor
terrível que fazia medo.
No meio de tudo isto não se via quase nada, ninguém ouvia ninguém com o barulho
do vento, da chuva, dos cabos e das roldanas que rangiam, das ondas a bater com
força no casco, dos trovões, dos marinheiros feridos que gemiam no convés, das
ordens que eram gritadas por todos um pouco ao acaso, mas no meio destes
barulhos, o mais forte de todos era, tenho a certeza, o do meu coração a bater.
Daquilo que fiz durante todo este tempo, não consigo lembrar-me com exactidão,
suponho ter andado um pouco por todo o lado, tentando ajudar a uns e a outros,
na realidade sem saber muito bem como, e um tanto desajeitadamente.
De manhã o tempo amainou. Faltavam dois marinheiros, e um terceiro estava morto,
estendido no convés, mas isso não impediu ninguém de dormir, esgotados como
estávamos depois daquela noite. Dormíamos sem pensar em socorrer ninguém, nem em
nenhuma outra coisa, enquanto um sol pequeno e tímido nos ia ternamente secando
as camisas sujas.
** Maria Benta, filha das ervas
Teresa Mascarenhas
Romance, 1993, Edição de Autor
Prémio Literário 25 de Abril, 1992
Prémio Literário Cidade da Amadora 92
Apresentado com textos introdutórios de:
Prof. Dr. Urbano Tavares Rodrigues,
Prof. Dra. M. Isabel Barbudo e
Dr. Vítor Wladimiro Ferreira
Seleccionado para as Bibliotecas Gulbenkian
sinopse
Maria Benta nasce em Alenquer no ano de 1708. Cedo aprende a fazer pela vida.
Montada num burro de seu nome Valhamedeus, o filho pequeno enfiado num alforge,
junta-se a uma família de ciganos saltimbancos. Em seguida chega a Lisboa onde
conhece a preta Fortunata que se torna a sua única amiga. Juntas vendem rendas,
fitas e outros atavios no mercado. Maria Benta descreve-nos então o terramoto de
1755 e a execução dos Távoras, acabando, já velha, por se instalar no Bairro
Alto com uma taberna onde fidalgos e criados, mulheres de esquina de rua, rufias
e outros castiços se sentam juntos à mesa, comem e bebem, e até altas horas
cantam o fado e conspiram contra Pombal.
crítica
Teresa Mascarenhas prossegue no rumo, já por ela trilhado com êxito, da novela
histórica. Nesta sua narração de uma vida, em que Maria Benta, arrojada aos
baldões da sorte, à boa maneira pícara, rouba, se prostitui, foge, ri-se de
tudo, dá à luz um filho, barganha, ama e sofre. Assistimos pelos olhos do povo
ao terramoto de 1755, à conspiração dos Távoras, à expulsão dos jesuítas. O
painel de uma Lisboa setecentista de fidalgos, mercadores, frades, pretos e
truões, num estilo rápido, colorido e eficaz. Uma história e a História
entrelaçadas.
Prof. Dr. Urbano Tavares Rodrigues
"(...) Por esses caminhos de misérias e de furtos até se estabelecer em
Lisboa, capital de todas as roubalheiras, de todas as mistificações e de todas
as loucuras com malandrins e arruaceiros, com padres femeeiros e raparigas
ladinas e desbocadas, com boémios de alfurjas e cantares sofridos. É delicioso
voltar a ler "estórias" que antigamente se ouviam nos serões
familiares. Venham estórias, cada vez mais do mundo de todos os dias." Dr.
Vítor Wladimiro Ferreira
"Espelhar a voz de uma remota alteridade: eis a tentação a que mais uma vez
a autora se entrega em Maria Benta, filha das ervas, fruindo e partilhando a
vertigem de encarnar num tempo escolhido. Vestindo habilmente o olhar e a
linguagem de uma Maria Benta nascida em 1708 que assiste, pasmada, ao "dia
do fim do mundo e da expiação dos pecados", Teresa Mascarenhas consegue
empolgar o leitor, ao devolver-lhe a história de um período tão fascinante como
conturbado, numa óptica que não consta nos compêndios."
Profª Drª Maria Isabel Barbudo, F.L.Lisboa
"Prosa saborosa, empenhamento, clareza, talento pujante. Um livro a ler com
prazer, uma carreira a seguir com atenção"
Fátima Viana, Letras & Letras, 01.Set.93
"A leitura deste livro foi para mim um momento de intenso prazer. Maria
Benta é um ser humano extraordinariamente vivo e rico" Prof. Chris
Sykes, U. Oxford
excerto
Mas também a minha rua era animada. Cheirava a torresmos, a suor, a canela, a
sardinheira, a cravos, a bosta de cavalo. Ao Domingo também cheirava a filhós.
Passava um porqueiro com os seus bichos de focinhos pretos e peludos, passavam
carroças de rodas a guinchar, passavam cabreiros e cabras de chocalho ao
pescoço.
Por todo o lado se ouviam os pregões, "fava rica!", "ó viva da
costa!" mas os mais bonitos eram as gaitinhas dos amoladores, e o pregão
dos aguadeiros que enchiam as barricas vermelhas no Rossio "Ahú!
Ahú!"
Também passavam mendigos a pedir uma moeda de três reis, penitentes de grandes
sinos, ao Domingo passavam os lojistas de nariz levantado, que agora, que os
deixavam andar de espada à cinta, até pareciam fidalgos, ou não era?
Passavam pretos caiadores de escada ao ombro a caminho do Rossio, passavam
leiteiros com vacas pela arreata, com as medidas, os potes de manteiga, as
cestas dos queijinhos embrulhados em folhas de parreira.
Havia também uma maluca que passava para cima e para baixo, muito desgrenhada, a
falar sozinha e a cuspir para o chão com muita força, e às vezes punha-se a
gritar, e levantava os braços como se fosse para apanhar fruta, e ninguém lhe
dava importância.
À noite havia pequenos grupos de rapazes fidalgos com os seus criados de
confiança, e escondiam-se, e metiam grandes sustos às pessoas, e divertiam-se
muito com isso.
Às vezes passava um peralvilho, o relógio na lapela de seda ou de veludo, o
lenço de renda dourada, muito perfumado, preso no dedo pequenino. Então
gritava-se "Água vai!" e lá ia selha de água suja... de forma a
encharcar as meias do infeliz, que se afastava aos saltinhos, irritado,
escandalizado.
E no Entrudo ainda era pior. Guardavam-se bexigas de porco, enchiam-se de
"águas vertidas", e era ver quem molhava mais; e às vezes por causa
destas brincadeiras se armavam grandes bulhas, e de uma vez molharam a
Desdentada e mais a Glória Zaragateira, e tiveram de chamar a guarda e tudo. E
não eram só as pessoas como nós que faziam estas coisas, havia muitos senhores
nobres que faziam o mesmo, e também usavam bexigas e tudo.
Ao fundo da rua, junto do oratório de Santa Maria Madalena com a candeiazinha
que acendiam à noite, ficava a loja do genovês. Vendia brocados, e meias de tule
prateado, e luvas, e toucas de franzidos. Ao lado morava um mestre perfumista da
Flandres, mas desconfio que era homem de grandes heresias. Defronte tinha morado
um ourives, e o queimaram por judeu, que era homem muito rico.
Passavam bandos de pretas a cantar, com grandes trouxas de roupa suja à cabeça.
Iam lavar ao rio.
A Bem da Nação
Teresa Mascarenhas
Teatro, 1999, Edições Golfinho
sinopse
Nesta peça de Teatro, através de uma avançada técnica de ressuscitação virtual,
um jornalista consegue trazer perante as câmaras de televisão aquele que foi o
homem mais poderoso do Antigo Regime. Trinta anos decorridos sobre a sua morte,
Salazar virá conceder uma última entrevista. Far-se-á acompanhar pelo Cardeal
Cerejeira e pelo Almirante Américo Thomaz. Veremos o que têm a dizer.
crítica
Um trabalho de grande interesse, sobretudo para as jovens gerações.
Edite Estrela
excerto
Voz off - Um, dois, três, experiência, um, dois, três, experiência.
Atenção, vamos para o ar. Luzes, som, câmaras, acção!
Jornalista - Boa noite senhores telespectadores, temos hoje aqui
connosco, presentes no nosso programa, as três figuras mais influentes do
chamado Antigo Regime, que conseguimos trazer ao nosso estúdio através da
avançada técnica de ressuscitação virtual de que dispomos. Sua Excelência o
Senhor Presidente da República, Contra-Almirante Américo de Deus Rodrigues
Thomaz, Sua Eminência o Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa, Dom Manuel Gonçalves
Cerejeira, e Sua Excelência o Senhor Presidente do Concelho de Ministros, Doutor
António de Oliveira Salazar. É ele o nosso convidado desta noite, foi ele que
fez questão de se fazer acompanhar por Sua Eminência o Senhor Cardeal Patriarca
de Lisboa e por Sua Excelência o Senhor Presidente da República.
Senta-se na cadeira que está colocada de lado, ficando as
personagens, da esquerda para a direita, alinhadas da seguinte forma:
Jornalista, Cardeal Cerejeira, Salazar, Américo Thomaz.
Jornalista - Doutor Salazar, o senhor sabe que nos dias de hoje,
decorridos que são quase trinta anos sobre a sua morte, o senhor é a figura
histórica mais detestada pela esmagadora maioria dos portugueses? Porque será?
Cerejeira (ao ouvido de Salazar) - Isto começa bem...
Salazar - Sei. Estou perfeitamente informado de tudo aquilo que se
passa. Sei que já não gozo da estima dos portugueses, como aconteceu noutros
tempos, sei que já não se organizam manifestações de apoio ao meu governo, sei
que os portugueses das gerações mais novas, muitos deles, nem sequer me
conhecem, o próprio Estado Novo, que foi a obra da minha vida, foi a coisa mais
importante que construí, infelizmente também já não existe. Não existe... mas
você quer saber porque é que já não existe? Não existe porque depois daquele dia
fatídico, aquele dia em que caí da minha cadeira, e fiquei incapacitado para a
governação... quer dizer, incapacitado não, eu estava em estado de coma mas não
estava propriamente incapacitado, mas enfim, aproveitaram-se da minha queda, da
situação em que fiquei, e foram chamar aquele rapaz que me veio substituir, o
Marcelo Caetano, lembra-se? Ele era um bom rapaz, era um jovem bastante
prometedor, não digo o contrário, mas tinha a cabeça cheia de modernices, e
depois era muito inexperiente, ainda estava muito verde, sabe você, não teve
força para se impôr como cumpria, e depois... já se sabe, não é, houve uns
poucos que começaram a conspirar contra o regime. Foram os tropas,
principalmente, e também uns outros tantos traidores, inimigos do Estado e da
Igreja. Depois deu-se um golpe de Estado, acabaram com a PIDE, andaram a fazer
uma Revolução que parecia que tinham endoidecido todos, e foi assim que as
coisas aconteceram, meu rapaz. Foi assim.
Jornalista - O senhor desculpe, eu estou a tratá-lo com todo o
respeito, portanto agradeço que o senhor faça exactamente a mesma coisa, e
sobretudo que não me trate por "seu rapaz". Eu sou um adulto, sou
casado, pai de dois filhos, sou licenciado em Jornalismo, sou um jornalista com
carteira profissional há muitos anos, não preciso nem quero que me trate por
doutor, mas parece-me que Senhor Jornalista não estaria mal.
Salazar - Pois é... no meu tempo havia mais respeito. Eu toda a vida
tratei os jornalistas com a mesma familiaridade com que tratava os meus alunos
na Universidade, e nunca nenhum deles se queixou.
Jornalista - É natural. Mas os tempos são outros, sabe, eu não sou
nenhum miúdo, e esse seu paternalismo irrita-me um bocado.
Salazar - Está bem. Há quarenta ou cinquenta anos atrás, a minha
protecção, a minha benevolência, esse paternalismo que o incomoda a si, eram
verdadeiros tesouros que muita gente disputava e que não havia dinheiro que
pagasse. Quanto a isso de eu ser hoje detestado... olhe que não foi sempre
assim. Os portugueses gostavam de mim, e as portuguesas mais ainda, e não era
porque eu fosse mais bem parecido do que outro qualquer. Era um homem comum. Mas
eu era o garante do bem estar das famílias portuguesas. E se há gente que não
gosta de mim, também sei que não sou completamente ignorado. E se não, você veja
o que foi que aconteceu com os outros políticos portugueses deste século... até
o Sidónio Pais! Gostavam tanto dele... mas neste momento já ninguém sabe quem
ele foi, ninguém quer saber dele para nada. Lá tem uma avenida com o nome dele,
mas não é um herói nacional, não é coisa nenhuma. É menos importante que uma
vedeta de televisão. Comigo é diferente. Ainda hoje se fazem teses e se escrevem
livros sobre mim.
Jornalista - Mas o senhor doutor não é só detestado, o senhor é
também desprezado por milhões de portugueses.
Salazar - Talvez seja desprezado por alguns, eu sei, mas também sei
que, no meio de tantos portugueses, ainda tenho alguns seguidores.
Cerejeira - Então, meu filho, vamos lá a ver... isso não é uma
grande falta de respeito? Tu não estás a falar aí com um Chico da esquina
qualquer, estás a falar com o Senhor Presidente do Concelho de Ministros, por
isso deves falar num tom mais respeitoso, estás a compreender? Mais deferente,
mais humilde, que é como manda a Santa Madre Igreja.
Jornalista - Sua Eminência desculpe, mas em primeiro lugar eu não
sou seu filho. Em segundo lugar estou aqui a fazer o meu trabalho, tenho a
obrigação de ser polido e delicado com as pessoas que entrevisto, mas não tenho
que ter nenhuma deferência especial por este senhor, nem por si, nem por aquele
ali.
Thomaz - "Aquele ali"? Mas você sabe quem eu sou? Isto até
parece alguma coisa organizada contra a Situação! Nós chegámos aqui, não estava
o ranchinho folclórico do Verde Gaio, não havia uma menina com um ramo de
flores, um grupo de populares, descalcinhos, coitaditos, a aplaudir...
Jornalista - Eu para a próxima vez vou ver se lhe arranjo isso tudo.
Até lhe arranjo uma fitinha para o Senhor Presidente cortar, está bem? Mas agora
vamos falar de coisas sérias. Doutor Salazar, existem algumas acusações graves
que recaem sobre si e sobre a sua governação, e era sobre essas questões
específicas que eu gostaria de lhe colocar algumas perguntas.
Salazar - Então pergunte, mas sempre lhe digo que nem percebo muito
bem por que motivo fui chamado a este programa de televisão. Fui um homem recto
e honesto, governei a Nação Portuguesa o melhor que sabia e podia, e não me
parece que haja ninguém que tenha a apontar-me o que quer que seja. Fui Ministro
das Finanças, fui Presidente do Governo durante quase quarenta anos, e bem me
podem virar as algibeiras do avesso, que não me ficou lá nenhuma moeda
escondida. E mesmo os inimigos que me apontam, eram os comunistas, eram inimigos
do Estado Português. Eu nunca tive inimigos pessoais.
Jornalista - Ao contrário daquilo que o senhor talvez possa pensar,
aquilo que os portugueses lhe censuram, nos dias de hoje, não é tanto a sua
ideologia de direita. Hoje em dia existe em Portugal um partido político de
direita, esse partido tem lugar na Assembleia da República, as pessoas são
livres de votar nele, e há muitas pessoas que votam, a prova é que esse partido
está lá representado por uns poucos de deputados, até já estiveram no Governo
depois do 25 de Abril de 1974, depois da tal revolução em que andámos por aí
todos doidos, como o senhor acabou de dizer. O que nos incomoda em si não são
tanto as suas simpatias ideológicas. O problema que se põe não é propriamente um
problema de direita-esquerda, que se quer que lhe diga, é uma questão que hoje
em dia cada vez tem menos significado para nós. O que nós gostávamos era de
analisar consigo, de uma forma tão objectiva quanto possível, aquilo que foi a
sua governação.
A Nobreza Portuguesa
Teresa Mascarenhas
Trabalho de Pesquisa, 1996, Edições Temas da Actualidade
INTRODUÇÃO
Há quem diga que a Aristocracia morreu com Luís XVI no cadafalso. A Nobreza
Portuguesa pensa que não.
Eis aqui uma dezena de entrevistas realizadas com os actuais representantes de
algumas Casas Nobres de Portugal, à frente dos quais, como não podia deixar de
ser, S.A.R. o Senhor Dom Duarte de Bragança, actual Duque de Bragança e
Pretendente ao Trono Português.
Todos eles têm um ou mais Títulos de Nobreza num País que é uma República, o que
faz deles um grupo social com características próprias. Sendo eles próprios
cidadãos comuns, são de certo modo olhados com alguma curiosidade pelos outros,
os cidadãos realmente comuns.
Quem são os nobres portugueses? Como vivem e como pensam?
Trata-se de um grupo muito diversificado de pessoas.
Pessoas com títulos de nobreza que diferem bastante no grau e na antiguidade,
pessoas com estatutos económicos e profissionais muito diferentes, pessoas que
fazem muita questão no seu título e pessoas que vivem como se o não tivessem,
pessoas que ocupam lugares de destaque na sociedade e pessoas mais apagadas,
pessoas que se movem no universo da Alta Finança, pessoas que se movem no
universo da Arte e da Cultura, pessoas que se movem apenas no interior do seu
pequeno universo familiar. "Miguelistas" confessos em contraste com
verdadeiros defensores da liberdade e da tolerância. Pessoas que pensam à
direita e pessoas que pensam um pouco mais à esquerda.
Têm opiniões muito variadas sobre questões também variadas, mas em todos eles
existe uma espécie de consciência ancestral de uma responsabilidade acrescida na
forma como desempenham o seu papel social, e na forma como conseguem viver de
acordo com os valores que cada um escolheu para si.
Gostaria de deixar expresso o meu agradecimento a estes dez portugueses que
falaram um pouco da Genealogia das suas Casas, falaram de si próprios, expuseram
opiniões e pontos de vista, quiseram dar a conhecer um pouco da sua intimidade,
aceitaram figurar nesta espécie de "Retrato de Família" da Nobreza
Portuguesa, um retrato que está muito longe de estar completo, mas que é no
mínimo bastante significativo.
Os Telles da Gama, os Mascarenhas e o
contributo que deram para a História de Portugal
Teresa Mascarenhas
Trabalho de pesquisa, 2001
sinopse
A História da minha família até onde me foi dado
encontrar informação. Alguns heróis, outros nem tanto...
Em princípio apenas para consumo familiar.
excerto
OS MASCARENHAS
Mascarenhas é uma pequena localidade sita entre Miranda do Douro e Bragança,
povoação que deu o seu nome ao chapéu de copa alta que os pastores da região
usavam, e onde transportavam o seu farnel. Ainda hoje existe a Ermida de Nossa
Senhora dos Pastores, com a padroeira, muito venerada na região, envergando o
seu chapéu de copa alta.
1) Sir Roderick Miles, cruzado Inglês. Foi companheiro de armas de D. Afonso
Henriques e tomou parte na conquista de Portugal.
2) Estevão Rodrigues Miles, homem de armas, batalhou com D. Sancho I na tomada
de Elvas e Torres Novas em 1205, foi feito Senhor de Mascarenhas e foi o
primeiro povoador do lugar. C.c. Urraca Annes
3) Lourenço Esteves de Mascarenhas Acrescentou o nome do feudo de seu pai ao seu
próprio nome, como era de uso.
4) Afonso Lourenço Mascarenhas
5) Afonso de Mascarenhas, Grande Senhor no tempo de El Rei D. Fernando.
6) Martim Vaz de Mascarenhas, Homem honrado e nobre, coutou-lhe D. Fernando a
Herdade da Capitoa em Évora.(teve um neto, D. João Mascarenhas, tão valido de D.
João I que lhe chamavam no Paço "O Infante Pequeno")
7) Fernão Martins de Mascarenhas, Fidalgo ao serviço do infante D. João, filho
de D. João I. Comendador da Ordem Santiago, serviu D. Afonso V. c.c. D. Filipa
Vaz
filhos:
Nuno Mascarenhas
Martim Vaz Mascarenhas Comendador de Aljustrel, c.c. Isabel da Silva, dama da
Princesa D. Maria, irmã de D. João II, filha de Martim Correia, Guarda Mor do
Infante D.Henrique.
Gonçalo Vaz Mascarenhas, com três outros companheiros de armas tomou aos Mouros
uma das portas de Ceuta, foi alferes do Infante D. Pedro e morreu em
Alfarrobeira.
João Mascarenhas o gago
Anna Martins Mascarenhas c.c. Rodrigo Brandão
8) Nuno Vaz Mascarenhas Comendador de Almodovar. Morgado de Porches c.c. D.
Catarina de Ataíde filha de Nuno Giz de Ataíde, que foi Governador da Casa de D.
Fernando (o Infante Santo) e de D. Mécia de Meyra
filhos:
Fernão Martins Mascarenhas
João Mascarenhas teve I filho D. Pedro que foi Capitão Mor em Azamor e
Governador da Índia
Isabel de Ataíde c.c. Estevão de Góis, Alcaide Mor de Mertola
Brites de Ataíde c.c. Ruy Gomes de Azevedo, Alcaide Mor de Alenquer
9) D. Fernão Martins Mascarenhas, fidalgo mto valido de D. João II, Capitão de
Ginetes. Foi Alcaide Mor de Montemor o Novo, Comendador Mor de Mertola, Alcaide
Mor de Alcacer do Sal, recebeu tratamento de Dom dado por D. Manuel para si e
seus descendentes. Casou 2 vezes. 1º c. D. Violante, filha de D. Álvaro Vaz de
Almada, 1º Cde Abranches. (desquitaram-se).
filhos do 1º casamento:
D. João Mascarenhas
D. Nuno Mascarenhas
D. Pedro Mascarenhas, Alcaide Mor de Trancoso, Comendador de Castelo Novo,
Estribeiro Mor D. João III, Foi o descobridor das Ilhas Mascarenhas, foi Vice
Rei da Índia, Embaixador em Roma e junto do Imperador Carlos V a quem recebeu
num banquete em que toda a lenha que se queimou foi canela. Morreu num
naufrágio.
D. Manuel Mascarenhas Governador de Arzila, teve vários filhos, entre os quais
D. Fernando, Governador de Arzila, que morreu em Alcácer Quibir, D. Isabel c.c.
D. Jorge Menezes Governador de Sofala, D. Vasco morto em Arzila pelos mouros.
Teve D. Fernando 8 filhos, entre os quais: D. Manuel, Governador de Marzagão, D.
Gil, D. Filipe e D. Francisco, que morreram batalhando na Índia, e D. Lourença
c.c. Francisco Carneiro, Governador da Ilha do Príncipe.
Casou D. Fernão Mascarenhas 2ª vez com D. Violante Henriques, filha do Regedor
Fernão da Silveira
filhos do 2º casamento:
D. Isabel c.c. João Coutinho 2º Cde de Redondo
D. Leonor c.c. Simão Freire Senhor da Bobadela
Beatriz
Teresa Mascarenhas
Romance, 1996, Edições Temas da Actualidade
Apresentação - Prof. Dra. Cristina Almeida Ribeiro, F.L.L.
Livro da Semana, Programa Acontece, Maio 1996
sinopse
Uma menina rica, em pleno Alentejo, no princípio deste século, resolve uma noite
fugir de casa com o cozinheiro espanhol. Passa algum tempo em Sevilha, até que
descobre que Martín é membro do Partido Comunista da Andaluzia. Com a polícia no
encalço, conseguem fugir para Paris. Entretanto rebenta a primeira guerra
mundial. Martín trabalha na cozinha de um restaurante, Beatriz serve às mesas e
toca piano para os soldados. Martín desaparece, Beatriz fica sozinha, grávida.
Enamora-se de um pintor de Montmartre, viaja com ele até Veneza, mas Sebastien
troca-a por um jovem veneziano. Beatriz regressa sozinha a Paris e recebe então
a notícia da morte do pai. É de novo rica, o que faz, de facto, uma grande
diferença. Até na forma de viver o amor. Conhece então Wladimir, um Romanoff
fugido ao terror bolchevista. Em seguida enamora-se de Julie, uma jovem de
grande beleza. É em Paris, no Café de la Paix, na frente de uma garrafa de
champagne, que Beatriz nos conta toda a história da sua vida emocionante.
crítica
"Você está em grande forma!" Orlando Neves
"Gostei muito!" Pedro Ayres Magalhães
Beatriz, de Teresa Mascarenhas, é um retrato feminino inesperado e aventuroso,
que se lê de um fôlego. Luís Filipe Rocha
excerto
Tantas memórias, e nem preciso de molhar a madalena no chá, como fazia o
Proust...
Devo estar a delirar. E eu não quero mentir, não quero iludir a realidade. Não
quero fugir-lhe. Não vale a pena. Para quê?
Apercebo-me agora que durante a minha vida toda não fiz outra coisa que não
fosse fugir.
Quereria, neste momento tão próximo já da agonia, doloroso e quase final, poder
fugir das minhas memórias que teimam, nostalgicas, em ressoar dentro de mim.
Sinto-me despojada de tudo aquilo que amei na vida. O meu pai, a minha égua, o
amor de Martín, a minha música, Sebastien, Wolodja, Julie... sinto-me despojada
de tudo e de mim própria, mas antes de deixar esta vida quero ainda redijir o
meu testamento.
A Rosalie deixo o palacete, deixo todos os meus bens materiais. Não é muito, mas
não precisará mais de trabalhar. Bem o merece, minha Rosalie, meu bálsamo!
À minha juventude lego a Bela Adormecida de Tchaikowski. Afinal, se não tivesse
nunca despertado do sonho cor-de-rosa que foi a minha infância, a minha vida
teria sido uma oura tragédia, a do tédio, da calmaria daquele Alentejo perdido e
sem esperança.
À memória do meu pai deixo uma ária de Pucini, Oh my beloved Daddy.
A Martín deixo o Coro dos Peregrinos do Tanhäuser de Wagner. Ele foi o início da
peregrinação, mansamente, a revelação da harmonia trágica, e foi o climax,
alvorada vermelha, de todas as forças da natureza gritando em uníssono um canto
de revolta e dor.
A Sebastien lego uma outra ária de Pucini, Vissi d'Arte, Vissi d'Amore...
Vissi d'Arte, vissi d'amore
non feci mai male
ad anima viva.
Con mano furtiva...
A Wladimir deixo o coro dos barqueiros do Volga. Porque ele foi a nostalgia da
terra em simbiose com a rudeza dos homens do mar. Possam as vozes profundas e o
marulhar dos remos embalá-lo para sempre. Festa, cântico, lamento, ternura,
raiva.
A Julie lego o Clair de Lune de Debussy. Foi esse o lugar que teve no meu
coração. Algumas notas tímidas, receosas, um lento bailado sensual, estrelas a
brilhar e algumas gotas de orvalho.
Aos meus trinta e nove anos acabados de cumprir deixo a Fantaisie Impromptue de
Chopin. Uma chama a arder, agitada, sobre um fundo de doçura, tristeza e
solidão. Que outra coisa foi afinal a minha vida?
Penso no momento da minha morte. Gostaria que a lua brilhasse, gostaria que
cobrissem o meu corpo com violetas.
* Sete Mulheres e também Alguns Homens
Teresa Mascarenhas
Contos, 2001, Edições Golfinho
Prémio Nacional do Conto Manuel da Fonseca
sinopse
Na sociedade em que vivemos, em que as pessoas moram ao lado umas das outras e
não se conhecem, nunca se viram porque passam apressadas e indiferentes, estas
sete mulheres que vivem na mesma Avenida de Lisboa nunca trocaram uma palavra,
nem sequer alguma vez se viram umas às outras.
São mulheres de idades e condições muito diferentes, que vão da prostituta de
rua com a sua crua realidade quotidiana, a um elemento do "Jet Set",
passando por uma estudante, uma senhora de idade, a proprietária de um pronto a
vestir, uma simples dona de casa e uma secretária de direcção. Estas sete
mulheres têm, no entanto, e sem o saber, alguma coisa em comum: um terrível
problema de desamor e de solidão, e uma situação de conflito com o masculino,
seja este o marido, o filho, o namorado, o amante, o chulo, o patrão. E no
entanto... as mulheres não são melhores nem piores do que os homens. Somos todos
seres humanos, perversos e egoístas, num mundo perverso e egoísta.
Teria sido fácil, do ponto de vista literário, fazer com que as personagens
centrais de cada um destes contos se cruzassem umas com as outras. A D. Laurinda
poderia tomar café com Suzy; Carlota poderia ser a secretária do marido de
Marta; Adelaide poderia prestar os seus "serviços íntimos" ao marido
de D. Maria de Lourdes. Mas não. Estes contos dizem respeito a pessoas que não
se conhecem. Se se conhecessem esta obra deixaria de ser aquilo que é: um
conjunto de sete contos sobre o problema do isolamento das pessoas e sobre
aquilo que é o vazio e o desencanto da vida quotidiana nas grandes cidades.
excerto
- Marta?
- Ai que susto, Filipe, acordou-me! Que horas são?
- São quase dez. Quer vir almoçar comigo?
- Quero, hoje até calha bem. Não, espere aí, eu hoje tenho de almoçar em casa,
que há três dias que não vejo a Francisca, mas posso ir ter consigo a seguir ao
almoço.
- Então pronto, está combinado. No Hotel do Mar.
- Não, no Hotel do Mar é melhor não. Temos lá ido muito ultimamente. Qualquer
dia pode começar a dar nas vistas.
- Então onde?
- Eu vou telefonar à Xinha. Ela empresta-nos a casa do Guincho.
A Xinha não podia ter ficado mais excitada.
- Claro que podem ir para lá! Eu daqui a bocado vou aí levar a chave; aliás,
estou cá a pensar... eu tenho outra chave, vocês até podem ficar com esta, para
poderem ir para lá sempre que quiserem, só têm é de me avisar, para eu não ir
interromper as vossas tardes íntimas... mas é óptima ideia, é muito discreto,
ninguém vai saber.
- Então pronto, venha almoçar aqui em casa comigo e com a Francisca. Temos é de
ter cuidado com a conversa.
Almoçaram as três, falaram de coisas insignificantes, a certa altura Xinha tirou
da carteira uma chave pequena, perfeitamente vulgar.
- É verdade, Marta, está aqui uma chave que apareceu num canto da minha sala no
dia em que o seu porta-chaves se abriu, lembra-se? É sua?
- Ah! É a chave da arrecadação! Que disparate! E eu que ainda nem tinha dado
pela falta!
E assim a chave da casa do Guincho passou tranquilamente para as mãos de Marta.
Acabaram de almoçar, despediram-se e Marta meteu-se no carro direita a Cascais,
Guincho. Passava das três quando Marta e Filipe entraram em casa da Xinha.
- Isto é tão excitante, não é?
- Porquê? Por causa do seu marido?
- Ai, não sei, entrarmos assim numa casa que não é nossa... irmos dar uma queca
numa cama de outras pessoas... eu acho isto tão excitante!... Parece coisa de
cinema francês... série B! Mas é tão excitante!...
- Ainda bem que acha! Ora deixe cá ver... a sua amiga parece que não está mal
fornecida de bebidas. Quer um xiripiti?
- Está bem. Eu vou ver se ela tem gelo no frigorífico.
Marta voltou com quatro cubos de gelo na mão. Deixou cair dois em cada copo.
- Oh Filipe, antes que me esqueça, eu tenho uma coisa para lhe perguntar:
- O que é?
- O que é que acontecia se uma pessoa com empresas, sei lá, uma pessoa como o
meu sogro, ou como o Bernardo, por exemplo, inflaccionasse de repente as acções
de uma empresa, e as fizesse descer logo a seguir?
- Depende... eram capazes de ganhar uns trocos... mas se se descobrisse que
tinha sido uma coisa artificial, uma coisa planeada, era uma barraca de todo o
tamanho. Mas porquê? Eles vão fazer isso?
- Não, que disparate, isto foi só uma pergunta minha! São coisas que eu às vezes
leio aqui e ali, e como não percebo muito dessas coisas de bolsa, e de mercado
financeiro, às vezes pergunto ao Bernardo, hoje lembrei-me de lhe perguntar a
si!
Estava terminada a "operação veneno". Agora era só esperar que o
Bernardo fizesse a vontade ao pai, que a bomba rebentasse, era esperar que o
Filipe se lembrasse desta conversa, esperar que a coisa desse um escândalo, e
que Bernardo pusesse a herdade e o negócio dos cavalos e dos vinhos em nome
dela. A seguir ia a um advogado, revogava a procuração e pedia o divórcio. - Bem
feita! - Pensava ela satisfeita, enquanto se rebolava com Filipe na cama da
Xinha. Tão satisfeita estava que Filipe reparou:
- A minha musa está hoje muito bem disposta...
- Ai, é tão bom estar aqui consigo...
Querido Filipinho, uma herdade já cá canta, e um negócio que deve dar para cima
de dez mil contos por ano. Não é bem a mesma coisa que tenho agora, mas pelo
menos posso deixar aquele troglodita do meu marido sem sair de mãos a abanar. E
se não acontece nada? O Bernardo é capaz de ter medo de um escândalo financeiro
que lhe dê cabo dos negócios... Mas não faz mal. Há-de surgir outra
oportunidade. Agora se aquele parvalhão pensa que eu vou pedir o divórcio e
ficar com uma "pensão de alimentos", está bem enganado.
Estava tão entusiasmada que Filipe aproveitou a ocasião para lhe dizer:
- Sabe uma coisa? Eu tenho uma novidade para si.
- Ai sim? O que é?
- Bom, o que é que a minha querida dizia se, em vez de passar a deitar-se com um
homem lindo como eu, passasse a deitar-se com dois?
- Com dois? Ao mesmo tempo? Oh Filipe, você está com os copos?
- Que ideia! É que isto é assim, eu gosto muito de me deitar consigo, mas também
gosto muito de me deitar com o Pepê, lembra-se dele?
- Oh Filipe, mas você é gay?
- Não, que disparate! Ohe lá, Marta, diga-me uma coisa: o que é um gay? É um
homem que não gosta de mulheres, não é? E eu gosto, você sabe muito bem que
gosto, agora também posso gostar de outras coisas, não posso? De maneira que
pensei que era capaz de ser giro nós fazermos assim uns ménages à trois...
- Eu não sei... mas parece-me que não estou a gostar muito da ideia!
- Mas porquê? Não gosta do Pepê?
- Que ideia, não é isso, o Pepê é giríssimo, parece uma star de Hollywood, e é
um querido, mas isso não é uma coisa muito esquisita?
- Não, não é esquisito, porque é que há-de ser esquisito? Nós qualquer dia
experimentamos, que eu tenho a certeza que vai ser óptimo. Vai ver que vai
adorar!
E a ideia resultou. Marta experimentou deitar-se uma primeira vez com o Filipe e
com o Pepê, e ficou completamente desvairada. As coisas que três pessoas sem
preconceitos e com um bocado de imaginação podiam fazer na cama!... Quem diria!
Aquilo era uma coisa do outro mundo! E Marta pensava: - Havia de ser giro, o
Bernardo num esquema destes... até lhe dava uma coisa!
** Um Triângulo no Infinito
Teresa Mascarenhas
Romance, 2001, Edição C.M. Sintra
Prémio Literário Almeida Firmino
Prémio Literário de Sintra, Ferreira de Castro
Apresentação - Dr. Vítor Wladimiro Ferreira
Adaptado para Cinema
sinopse
Uma viagem ao incrível universo de uma senhora internada numa clínica
psiquiátrica. Branca consegue recordar duas encarnações que viveu anteriormente,
consegue iludir a vigilância das enfermeiras e deambular de noite pelos
corredores, até ao dia em que pela porta da clínica entra... El Rei Dom
Sebastião.
crítica
"(...) Uma alucinante viagem ao mais secreto da intimidade humana, aos
nossos medos e sonhos, ao mundo impossíveis, ou antes, à criação de
mundos."
João Rodil
"(...) excelente obra literária que muito apreciei."
Maria Calado, Vereadora da Cultura C.M.Lisboa
Esta obra da minha muito querida amiga Teresa Mascarenhas, pela qual vivamente a
felicito, reflecte uma imaginação (quase asfixiante por vezes) prenhe de
cultura, saber espiritual, moral e cívico, uma tipologia de consciência crítica
tão inquieta de surpresas felizes, desalentos e funestas desilusões, quanto
fugaz, reticente, ciente e fixa nos grandes valores humanos existenciais. Uma
amálgama de silêncio, secretismo, oscilações de alma com e sem asas, volitismo
hermético e abulicismo fingido, ausência e vazio, prospecção, sonho, uma espécie
de remar sem batel, sem leme nem mar... gritos surdos e lágrimas mudas, licores
de dor e néctares de querer, tormentos para perecer e para vencer...
necessária... recrudescente de desejos e de satisfações... fenómeno sentimental
obscuro e luminoso... umas vezes solidão vazia e inodora, outras vezes cheia e
policromizada de aromas. Esta foi a leitura que fiz deste belíssimo romance.
Prof. Dr. Augusto Deodato
Guerreiro
Imaginação, poder de análise psicológica, cultura e sementes de génio não lhe
faltam!
Manuela Nogueira
Um livro que aconselho vivamente pelo prazer de uma escrita que mede o sentir
majestosamente.
António Cândido, O Dia, 26.10.2001
excerto
Às vezes penso que um dia o meu corpo há-de morrer, mas a minha tristeza não.
Há-de ficar para sempre, e as pessoas vão poder vê-la, se quiserem. É o nevoeiro
das praias, o fumo dos navios ao longe.
Os dias passam, se é que passam. E eu continuo aqui.
Não sei o que pensar, não me apetece pensar. Pensar em quê? Sinto-me vazia de
tudo. Luto contra os meus próprios pensamentos.
Um dia hei-de subir aos Céus. E hei-de falar com os anjos e com as estrelas. E
até com a morte.
A morte é a mais bela das deusas, a sua voz é doce, e ela canta para mim. Às
vezes sonho com ela, e oiço o que me diz, e que a ninguém posso revelar. Mas
hoje sei, sei o que me espera no além. Esperam-me taças de champagne, banheiras
cheias de pétalas de flores... violinos... quem sabe se os próprios deuses do
Olimpo!
Vejo-me no meio das estrelas. Os meus olhos piscam de tanta felicidade. Mas não,
é claro que tudo isto só irá acontecer num tempo futuro. Para já tenho de viver
com aquilo que sou: uma senhora de meia idade fechada numa clínica psiquiátrica.
É uma coisa que não faz sentido, porque no meio de toda esta gente, entre
doentes, médicos e enfermeiros, devo ser a única a conservar ainda uma réstea de
lucidez.
Estou só. Nasci só, hei-de morrer só, nunca na vida estive de outra forma que
não fosse completamente só. Condenada ao meu próprio vazio. Nesta altura da
minha vida já não devia surpreender-me com isso. Com a idade que tenho, que já
nem sei qual será, já vivi o suficiente, tenho mais do que obrigação de saber
que a solidão é a condição natural do ser humano. Chamo-me Branca, que é nome de
mulher ausente. Também por dentro me sinto vazia; vazia de sentimentos, vazia de
mim própria, vazia de tudo.
Há quem diga que a solidão dói. É mentira. Às duas por três a gente habitua-se,
e de repente já não dói. A solidão é como o silêncio... é como quando está muito
calor e o céu fica quase branco. A solidão é como um mergulho no mar... um
mergulho que durasse a eternidade toda.
Ouvi um dia dizer a alguém que também se morre de solidão. Pode ser que seja
verdade.
Tanto nesta minha vida presente como nas duas anteriores que recordo com maior
nitidez, posso dizer que comecei por amar o amor. Amei-o com todas as fibras do
meu coração. Ele foi a razão de ser da minha vida, da minha alegria, da minha
felicidade. Acabou por ser a maior decepção que alguma vez experimentei. Porque
nunca o amor correspondeu às minhas espectativas. O amor é a maior das mentiras.
É uma mentira inventada para explicar os mais extraordinários fenómenos de
histeria que acontecem na vida das mulheres... e também de alguns homens. Mas
nem por isso deixa de ser mentira. Foi o amor que destruiu a minha vida.
Desde o dia em que nascemos, somos levados a acreditar em mentiras. Mentiras em
cima de mais mentiras.
E com tudo isto estou só. Nem os amores que vivi, nem as artes, que amei e amo
ainda com verdadeira paixão, nada preenche o meu vazio. Nada jamais poderá
preenchê-lo. Estou só. Como se alguma vez alguém tivesse estado de outra forma
que não fosse no mais perfeito e completo estado de solidão! Ainda bem que assim
é. Desta forma sobra-me mais tempo para pensar... nem eu sei em quê.
Por tudo isto comecei um dia a refugiar-me no álcool e nos comprimidos. Chegava
a beber uma garrafa de champagne numa tarde. A seguir tomava comprimidos,
escolhia os mais bonitos, os amarelos, os azuis... em seguida entrava num estado
de inconsciência que durava dias, semanas...
Porque será que ao longo de todos os dias da minha vida nunca consegui pensar
nem sentir de outra forma que não fosse esta? Hoje, passados todos estes anos,
ainda e sempre esta terrível nostalgia, mais forte do que eu.
Lembro-me do dia em que aqui cheguei. Lembro-me como se fosse hoje.
Entrei pelo portão do jardim, um portão de ferro pintado de verde, percorri uma
longa alameda ladeada de cedros, abetos e outras árvores, e cheguei à porta
principal da moradia onde está instalada a clínica. O vento soprava por entre a
folhagem. Era como se uma orquestra de anjos tocasse flauta só para mim.
Naquele momento compreendi que esta casa iria passar a ser a minha casa... para
sempre.
Decididamente, não gosto de aqui estar. A começar nos médicos e nos enfermeiros,
a terminar nos doentes, são todos completamente loucos. Uns mais agradáveis,
outros verdadeiramente idiotas.
Todos os dias nos levantamos e deitamos à mesma hora, todos os dias nos servem
as refeições à mesma hora. É absurdo, é completamente estúpido.
Há no entanto uma coisa de que gosto muito, que é o jardim. É de facto
magnífico. Sempre gostei muito de plantas. Passear no jardim da clínica tem
sobre mim o efeito de um verdadeiro bálsamo. Gosto de tratar das roseiras
bravas, gosto de me sentar à sombra das árvores.
Há uma, sobretudo, este velho plátano, que é... não é uma árvore. É um amigo, um
confidente, um companheiro. É à sombra da sua folhagem magnífica que passo a
maior parte das minhas tardes, a ouvir uma autêntica sinfonia que o vento
assobia devagarinho por entre as suas folhas. Às vezes deixo-me ficar ali, sem
pensar em nada, a saborear aquele silêncio quase místico. Fiz daquele jardim uma
espécie de lugar de culto, um templo sustentado por colunas que são os troncos,
onde as copas das árvores formam as cúpulas e as abóbadas, um templo onde os
turíbulos de incenso são as flores perfumadas que existem um pouco por todo o
lado, sobretudo na Primavera. Outras vezes ponho-me a pensar... lembro-me do que
foi a minha vida antes de vir para aqui. A casa onde nasci... os amores que
vivi...
Fui uma mulher de muitos amores. Mas tudo isso pertence ao passado. Não tenho
neste momento outros amores para além de William e de Giovanna. Não tenho nem
quero ter. Amo Giovanna, amo William. Outros eus anteriores a mim que viveram
noutros tempos, noutras paragens. Amo estes dois seres que a morte me levou, e
que são pedaços de mim própria, como se ao mesmo tempo fossem também personagens
exteriores a mim.
Porque eu hoje sei, tenho a certeza que o tempo em que William viveu, o tempo em
que viveu Giovanna, e este tempo em que eu própria vivo, são um só. Passaram
séculos, e nada mudou. A Terra gira, gira, e continua sempre igual.
Em Nome do Amor
Teresa Mascarenhas
Ficção, Inédito
sinopse
Uma colectânea de trinta e cinco textos apresentados sob formas que vão do conto
ao diálogo, passando pela poesia. Cada um destes textos é uma homenagem a uma
figura real ou do mundo da ficção, e é uma nova luz lançada sobre a questão da
homossexualidade. Para que os heterossexuais entendam, de uma vez por todas,
quem somos e como somos.
Eis algumas das personagens, só para abrir o apetite: Rudolph Nureyev, Virginia
Woolf, Yukio Mishima, Maria Antonieta, Gianni Versace, Freddy Mercury, Petra von
Kant, Dorian Gray, Joana d'Arc, Thomas Mann, Eleanor Roosevelt, Andy Warhol,
Jane Eyre, Urupianga, Alexandre o Grande, Rainha N'zinga, Miguel Ângelo,
k.d.lang, Salvador Dali, Hamlet, Ludwig da Baviera, Martina Navratilova, João
Villaret, Billy Budd, Christina da Suécia, Federico Garcia-Lorca.
crítica
Uma obtra rara.
José Correia Tavares, Vice-Presidente da Associção Portuguesa de Escritores
excerto
RUDOLPH NUREYEV
Uma fantasia em torno... dos possíveis sonhos de Rudolph Nureyev.
Tantas vezes tenho subido a este palco, dançado a Bela Adormecida... sempre foi
uma das minhas obras preferidas. Por causa do excerto do Pássaro Azul, suponho
eu.
Por tudo aquilo que conheço da tradição do Ballet Russo, pelo menos em S.
Petersburgo, a figura do Pássaro Azul tem sido invariavelmente interpretada de
uma forma cheia de encanto e ternura perceptível através dos pas de bras, dos
battements... há um doce bater de asas, existe uma grande fragilidade inerente a
esta figura. Mas eu não sou Russo. Sou Tártaro. O pequeno pássaro frágil, tímido
e hesitante que parece esvoaçar procurando um lugar onde pousar, consegui eu
transformá-lo num pássaro rápido e viril, de voo seguro, que a cada momento
procura voar mais alto e mais alto ainda.
O Pássaro Azul é a minha melhor variação. É a grande criação da minha vida,
aquela que sinto mais perto do meu coração.
Sou um bailarino que procurei ir um pouco mais longe em cada dia da minha vida,
transcender-me a mim próprio na minha técnica, na minha sensibilidade e na minha
criatividade enquanto artista. Por isso julgo poder afirmar: Eu sou o meu
próprio Pássaro Azul. Posso voar pela floresta. Não fora esta minha tristeza,
esta minha solidão, e seria feliz.
Um bom bailarino é aquele que domina toda a técnica. Não há muito mais que dizer
a este respeito.
Aquele que quer ir mais além, que quer ser alguma coisa mais do que,
tristemente, apenas um bom bailarino, tem de seguir outros caminhos mais
ousados, tem de desafiar todos os conceitos, recriando-os a partir do nada. No
meu caso, compreendi que o mais importante na dança é aprender a arte de
esconder toda a técnica. Usá-la, dominá-la, mas também escondê-la por completo,
dando a ilusão de um permanente improviso espontâneo, com a beleza e o encanto
de tudo aquilo que é conseguido pela primeira vez na vida, uma única vez na
vida. Dançar consiste em interpretar personagens com a espontaneidade de quem
declama poesia. É preciso que o público tenha sempre a ilusão de estar a
assistir a qualquer coisa de verdadeiramente especial, nunca antes feito e
impossível de repetir.
Hoje no entanto sinto que qualquer coisa de diferente está para acontecer. Sinto
uma grande agitação dentro de mim. Não sei se é um bom ou mau presságio, sei
apenas que me sinto um tudo nada assustado e que isso me dificulta certos
passos. Sinto que as pernas me tremem... há pouco, durante o ensaio, quase me
desequilibrava durante uma pirueta.
Sinto uma ansiedade dentro de mim... não sei bem se é tristeza, mas também não é
alegria, certamente. O cenário foi todo decorado em cores pastel. Deve ser isso.
Os tons pastel sempre me inspiraram sentimentos de melancolia.
Mas eu tenho uma plateia na minha frente, centenas de pessoas que não posso
desiludir. Por isso não vou permitir que os meus sentimentos mais íntimos
interfiram com a minha interpretação artistica.
Felizmente, depois de dançar este excerto mais de mil vezes, acabo por
executá-lo sem nenhum esforço. Todos os passos me saíram com tanta naturalidade
que sem que eu desse por isso a peça está practicamente terminada. Falta-me
apenas beijar Aurora, e a Valsa Final.
Não é possível. Alguma coisa deve ter acontecido. Não posso acreditar naquilo
que vejo. Acabo de beijar a minha princesa, e no entanto não é ela que se
levanta do túmulo.
É Romeu. Um Romeu de uma beleza... Para meu espanto, ergue-se em seguida Armand.
Seguem-se-lhe Siegfried, Florimund... estou estupefacto. À medida que estes se
vão levantando, outros vão surgindo no seu lugar. Acteon, Solor, Albrecht,
Andrei, D. Quixote, o meu Corsário, o Quebra-Nozes... todas as personagens
fantásticas que interpretei ao longo da minha vida de bailarino.
Por qualquer motivo que me transcende, não posso resistir a estas figuras
extraordinárias. Recebo-as a todas nos meus braços, seguro-as como de cada vez
que interpreto Albrecht, e levo o imenso ramo de narcisos à sepultura de
Giselle. Estas personagens, sinto que terei de conservá-las para sempre comigo.
Porque sou eu próprio, em diferentes peças de bailado, como Narciso, enamorado
de mim próprio.
Acordo. Foi tudo um sonho, afinal! Um sonho inacreditável, como todos os sonhos.
Graças a ele, graças ao Pássaro Azul e a todas as fadas, sylphides, gnomos e
deuses da Floresta, nunca mais na minha vida voltarei a sentir-me só.
ORLANDO
WOOLF, Virginia - Orlando; London, Granada Editions, 1977
POTTER, Sally - Orlando; cinema, 1993
Uma homenagem a Virginia Woolf.
Por qualquer razão que me transcende, e embora seja uma rapariga, fui baptizada
com o nome de Orlando. Vivo num farol à beira mar, e aqui passo os meus dias e
as minhas noites. Passo horas e horas a olhar o mar; passo também muitas horas a
ler.
Era ainda muito nova quando me apaixonei pela literatura. A minha solidão é tão
completa que posso permitir-me ler durante horas seguidas, e cada novo livro é
para mim como a descoberta de um tesouro de grande valor.
A minha vida é também feita de recordações, memórias antigas de momentos de
felicidade que nunca vivi, mas que poderia ter vivido.
De todos os autores que me chegaram às mãos até hoje, a minha preferência vai
para Virginia Woolf. Amo Virginia Woolf, amo-a desde sempre, amá-la-ei para
sempre.
Sei que sou muito jovem, que ainda não posso compreender a vida. Seja. Sinto que
tenho um longo caminho a percorrer. Pois bem, se assim é, percorrê-lo-ei
agarrada aos meus livros. Sei que um dia Virginia Woolf virá ao meu encontro, e
sei que para ser digna de viver esse momento a minha alma terá de estar
embriagada de poesia.
Também já ouvi falar da morte. Um dia eu própria terei de a enfrentar. Mas a
morte não me importa para nada. Sou jovem, tenho muitos anos para viver. A vida
deu-me um belo rosto, deu-me um coração capaz de compreender as coisas
maravilhosas que leio, deu-me este farol, que me importa a mim a morte? Por que
motivo terei de pensar nisso agora? Sou insensata, bem sei. Porque a morte pode
chegar a qualquer momento. Mas desde quando foi a juventude sensata? Jovens
sensatos... são aqueles que já nasceram velhos.
Dizem que a Literatura nos faz melancólicos. Mas eu sei que "apenas a
espessura de uma lâmina separa a melancolia da felicidade". Esta é uma
frase de Virginia Woolf que jamais poderei esquecer.
Com a sua imaginação genial, delirante, Virginia Stephen Woolf escreveu um dia
um romance com o meu nome em homenagem a Vitoria Sackville-West. Eu, Orlando,
Virago Saphic Woman, e Vitoria, somos agora uma e a mesma personagem. Também eu
experimento por Virginia um sentimento verdadeiramente arrebatador. Por vezes
sonho com ela, e é como se tudo fosse tão real... Virginia é como uma planta
marinha. É alta, esguia e delicada, os seus olhos são grandes e um pouco
tristes. São azuis escuros, profundos como oceanos. Enquanto fala as suas mãos
um pouco trémulas ondulam como plantas aquáticas. A sua voz é grave e musical, e
ela fala, fala muito, julgo que por vezes nem ela própria terá consciência das
loucuras que me diz. É uma mulher fora deste mundo. Diz-me que ouve vozes... e
que o seu destino é desaparecer um dia no meio das águas. Não sei se devo
tomá-la a sério, nem sei quanto tempo irá durar este envolvimento, por quanto
tempo sonharei ainda com ela, mas sei que só para sonhar com Virginia Woolf já
me valeu a pena viver.
Com tudo isto, continuo a aguardar a sua chegada. Estamos no mês de Setembro.
Choveu um pouco de manhã, mas agora observo um Arco Iris magnífico que se
estende desde a linha do horizonte, sobre a terra, até ao fim dos mares. Há
muito que não me era dado observar um Arco Iris como este. É magnífico. As suas
cores luminosas são brilhantes à vista como notas de música para o ouvido.
Primeiro o violeta. Violeta como as próprias violetas, as flores mais
melancólicas que conheço, violeta como os meus olhos que brilham como duas
estrelas.
Em seguida uma tonalidade de azul que tem o nome de indigo, o azul do Oceano ao
entardecer, o azul da tinta com que escrevo estas linhas de homenagem a Virginia
Woolf, o azul dos pássaros que voam sobre o mar de Inglaterra.
Segue-se-lhe uma outra tonalidade de azul, um azul aberto como o das penas de um
pavão. Como os olhos de Virginia Woolf.
E eis que de repente surge o verde. Verde como os prados de Inglaterra, verde
como uma esmeralda.
Também o amarelo me inspira. Amarelo como o sol, amarelo como os narcisos, como
as mais belas flores da natureza. Amarelo como asas de borboletas. Amarelo com
beijos de amor.
Em seguida posso distinguir a cor laranja. Laranja como as brasas de uma lareira
acesa na noite, laranja como a pequena raposa que um dia me mordeu até fazer
sangue.
E por fim o vermelho. Vermelho como o vinho, vermelho como o amor, vermelho como
o meu coração que há anos, do alto deste farol, espera por Virginia Woolf.
Sei que ela vai chegar um dia. Misteriosamente. Esse vai ser o dia glorioso da
minha vida. Todos os dias me preparo para ela. Visto-me de brocado, penteio
cuidadosamente os meus cabelos cor de fogo, às vezes prendo-lhes uma orquídea,
perfumo-me, cubro-me com as minhas mais belas jóias, e aguardo. Um dia ela
virá.
Virginia Woolf morreu de uma forma estranha. Mergulhou nas águas do rio e deixou
que a morte a levasse. Mas se todos os rios vão ter ao mar, eu sei que um dia o
espírito dela virá ao meu encontro. Todas as noites acendo o farol. Ser-lhe-á
assim mais fácil orientar-se, encontrar o caminho até ao meu coração
apaixonado.
Guilherme e Leonor
Teresa Mascarenhas
Romance, Inédito
sinopse
Esta é uma história assumida e inequivocamente homossexual. Guilherme e Leonor
são dois irmãos imensamente amigos. Leonor tem vinte e oito anos. É tradutora e
Guia Interprete. Guilherme tem vinte e dois, é finalista do Curso Superior de
Teatro, trabalha numa pizzeria nas horas vagas. Têm uma cocker chamada Lucrécia
e vivem num pequeno apartamento em Lisboa. Três asoalhadas e uma varanda com
sardinheiras e vista para o Tejo. É esse o espaço onde partilham todos os
pequenos nadas do seu dia a dia.
O leitor entra na vida de Guilherme e Leonor numa noite em que Leonor tenta
ganhar coragem para terminar uma relação amorosa com Beleca, uma rapariga de
quem se desencantou. Ao mesmo tempo, a última coisa que quer é vê-la sofrer.
Guilherme dorme no quarto ao lado.
A partir daí, o leitor irá conhecer o universo mais íntimo de cada um deles,
assistindo àquilo que são alguns flashes que retratam vários momentos, vividos
ao longo de vários meses, cerca de um ano da vida destes dois irmãos tão
cúmplices e sem segredos.
excerto
Era Sábado e Guilherme acordou muito bem disposto. Ao diabo com as pizzas! Era
fim de semana e ele ia ter um dia em grande. Ia almoçar a casa de um amigo que
tinha uma casa na Praia das Maçãs. Era o Nelson, mais conhecido por Nené da Boca
Fácil. A casa não era dele, era dos pais, mas tinha uma churrasqueira no jardim,
ele volta e meia convidava meia dúzia de amigos, e passavam ali umas tardes
muito divertidas.
Guilherme chegou já passava das três, e ficou surpreendido com a quantidade de
pessoas que estavam. Parecia que o "bichedo" todo de Lisboa se tinha
concentrado ali em massa. Estavam alguns que Guilherme conhecia bem, outros que
ele nunca tinha visto. De volta da churrasqueira estavam o Pipas e a Francisca
das Hortaliças. Viravam e reviravam aplicadamente as costeletas, os frangos, as
salsichas, os bocados de entrecosto, os pimentos, as batatas embrulhadas em
papel de prata. Do outro lado o Toy remexia a salada. O Jorge, o Zé Luís e o
Carlos Flautinhas andavam por ali de copo de sangria na mão. A Marlene
Folclórica e a Amelinha Contrabandista estavam na sala, sentadas, muito
senhoras, a ver quem chegava. No jardim, debaixo dos chapéus de sol, estavam as
do "Chá das Fonsecas", no "tricot", como sempre. Ao todo
deviam ser mais de trinta.
Ainda por cima havia uma "atracção". O Nelson tinha convidado um rapaz
russo, ou esloveno, ou lá o que era. Chamava-se Dimitri, era alto, muito louro e
ainda por cima... lindo de morrer. Parecia estar a gostar muito do ambiente.
Passava das cinco quando começaram a almoçar, sete horas o ambiente estava a
aquecer. De repente alguém se lembrou que podiam jogar ao jogo da garrafa. Quem
ganhasse podia levar o russo para casa. Às dez e meia da noite o ambiente estava
ao rubro. Metade deles estavam nús, ou quase nús; já todos, praticamente, tinham
beijado todos, já todos tinham bebido mais do que a conta. A sangria e a cerveja
tinham corrido a jorros, o whisky do pai do Nelson era do bom, e estava ali
mesmo à mão...
Uma da manhã comeram os restos do churrasco, e a seguir a Marlene Folclórica
teve uma ideia das dela. Lembrou-se de ir ao primeiro andar, ao quarto dos pais
do Nelson, bisbilhotar as toiletes da mãe Clotilde Margarida.
- Meninas! Ricas! Venham cá, venham ver o que eu descobri!
Não foi preciso mais. Em menos de um ai estavam todos a experimentar os
vestidos, os fatos de banho... daí a pouco desfilavam pela galeria e desciam a
escada em grande pose. Era a passagem de modelos do ano. O Toy tinha posto um
vestido de noite com uma touca de praia cor de rosa berrante, daquelas todas
cheias de cabelo de nylon, todo aos caracóis. O Zé Luís ia de fato de banho,
roupão turco e sapatos de salto alto, cheio de colares e pulseiras. Eram mais de
dez a desfilar, cada uma mais cómica do que as outras.
Puseram música e começaram a dançar. O Carlos ia acendendo e apagando as luzes a
fazer efeito de luzes de discoteca. De cada vez que as apagava o russo sentia-se
apalpado num sítio diferente, mas não parecia nada incomodado com isso, antes
pelo contrário. Sabia que era bonito, percebia que estava a causar sensação e
sentia-se muito satisfeito com isso.
De repente, no melhor da festa, abriu-se a porta. Eram os pais do Nelson! O
Senhor Marques e a D. Clotilde Margarida, coitada, que vinha à frente e até lhe
ia dando uma coisa, deu dois passos atrás e ficou sem fala.
Foi a grande confusão. Em menos de um minuto, e por entre muitos gritos e
atropelos, fugiu tudo pela escada acima. No chão ficou a peruca de nylon,
ficaram vestidos, colares, sapatos...
- Mas... o que é isto? perguntava o pai. - Nelson, o que é que isto significa?
- Nada, pai, não é nada... são só uns amigos meus... nós resolvemos fazer uma
festa...
- Uma festa... com os meus vestidos de Verão? perguntava a mãe numa voz sumida.
- Era só uma brincadeira, mãe, por causa de um teatro que nós vamos fazer...
- Uma brincadeira... Nelson José, eu para já quero os teus amigos todos na rua,
neste minuto. E tu... tu... olha, eu agora tenho de ir acalmar a tua mãe, que
não se está a sentir bem, está aqui está a desmaiar, mas nós amanhã falamos.
E assim acabou a última churrascada que a Nené da Boca Fácil ofereceu aos amigos
na casa da Praia das Maçãs, porque no dia seguinte os pais tiraram-lhe a chave.
Concerto para Flauta
Teresa Mascarenhas
Poesia, Inédito
sinopse
Um longo poema dedicado à mulher com
quem vivo há quase dezassete anos.
excerto
Ana, para ti esta balada...
Ana, meu farol, minha jangada
Ana, dos olhos flores de olaia
Ana, que és rochedo, és mar e és praia
Ana, pétalas de flores dispersas
Ana, tuas ideias perversas
Ana, teu corpo ao abandono
Ana, eu não tenho sono
Ana, tua palavra tão branda
Ana, mais que janela, és varanda
Ana, esta sede irracional
Ana, minha paixão boreal
Ana, noites nossas de alegria
Ana, em nome da poesia
Ana, que és serpente sibilante
Ana, nem sei se te amo o bastante
Ana, só eu sei tua fragrância
Ana, nada mais tem importância
Ana, porque a vida é uma festa
Ana, e o amor é o que nos resta
Ana, tive uma noite um presságio
Ana, minha rocha meu naufrágio
Ana, minha confidente
Ana, teu olhar transparente
Ana, paixão e revolta
Ana, heroína à solta
Ana, harmonia e conflito
Ana, não contenhas o teu grito
Ana, teus olhos minha claridade
Ana, voltamos à puberdade...
A Homossexualidade
Masculina
Teresa Mascarenhas
Trabalho de Pesquisa, 1995, Edições Temas da Actualidade
INTRODUÇÃO
Este livro pretende oferecer um breve momento de reflexão sobre a
homossexualidade masculina. Um tema sobre o qual um grande número de leitores,
mesmo os heterossexuais, sobretudo os heterossexuais, deseja provavelmente
aprofundar um pouco mais o seu conhecimento.
Trata-se de uma questão que é de sempre, e sobre a qual muito parece haver ainda
a dizer. Principalmente porque aqueles a quem mais directamente diz respeito, os
próprios homossexuais, ao longo dos séculos e salvo raras excepções se têm
esquivado a falar sobre a intimidade dos seus sentimentos e da sua sexualidade.
Este silêncio dos homossexuais sobre a sua verdade foi um fenómeno que existiu
até ontem.
Neste momento as coisas mudaram. Ao contrário do que seria de esperar, apenas um
dos indivíduos contactados se recusou a conceder a entrevista. As suas razões? O
estatuto social da família. Os outros, pelo contrário, acolheram a ideia com
satisfação e até com entusiasmo. Como se toda a vida tivessem estado à espera de
uma oportunidade de romper o secretismo da sua intimidade e falar finalmente um
pouco de si.
Tiveram aqui a palavra, disseram o que tinham a dizer.
Dois deles quiseram inclusivamente dar a cara e o nome.
São doze entrevistas que se pretenderam informais no tom mas nem por isso menos
sérias na abordagem das questões, e sobretudo despidas de preconceitos. A
intimidade é chamada pelo nome que tem, sem falsos pudores, evitando-se no
entanto a obscenidade gratuita, tentando não cair na triste vulgaridade
comercial.
Foram entrevistados indíviduos de grupos etários que vão dos 19 aos 64 anos, com
estatutos sócio-profissionais muito diferentes, indivíduos diferentes até na cor
da pele, com opções políticas e religiosas muito diferentes. Está presente um
monárquico como está um militante do PSR. Estão católicos praticantes como está
um agnóstico convicto.
Nalguns pontos assumem no entanto posições convergentes: Todos eles entendem que
a homossexualidade é uma característica que nalguns casos se revela logo na
infância, noutros casos só muito mais tarde se revela, mas é uma tendência que
nasce com o indivíduo.
Todos eles garantem que os homossexuais portugueses são muitos. Ninguém sabe
quantos serão ao certo, mas de acordo com estes depoimentos são muito mais
numerosos do que geralmente se imagina.
Nenhum deles parece ter qualquer espécie de recalcamentos contra as mulheres.
Todos eles têm códigos de valores e todos eles fazem conceitos morais da vida.
Todos eles parecem absolutamente libertos de qualquer sentimento de culpa em
relação à sua orientação sexual, todos eles estão perfeitamente satisfeitos com
a sua condição de homens e com a sua condição de homossexuais.
Todos eles passaram por situações mais ou menos rocambolescas, e todos eles
pareceram ter algum prazer em fazer graça com a sua condição de homossexuais.
Quem são eles? Pessoas comuns. Pessoas, apenas pessoas que quiseram falar um
pouco de si próprias. Talvez seja... esse rapaz que vai sentado ao seu lado no
autocarro.
A Homossexualidade Feminina
Teresa Mascarenhas
Trabalho de Pesquisa, 1996, Edições Temas da Actualidade
Classificado em 3º lugar no Programa Escrita em Dia
INTRODUÇÃO
À semelhança daquilo que foi feito no primeiro volume desta colecção, tentamos
oferecer ao público leitor um momento mais de reflexão sobre a realidade de um
grupo de pessoas que entenderam viver uma sexualidade de sinal contrário. Também
este é um tema ao qual julgamos que um grande número de leitores não irá
resistir, seja qual for o seu sexo e a sua orientação sexual. Porque é um dos
maiores tabús da História da nossa Civilização. Um tabú que engloba um mistério
indesvendável.
Tal como já tinha acontecido com os homossexuais masculinos, também elas, as
sáficas, ao longo dos séculos, e salvo raras excepções, se esquivaram a falar
sobre a intimidade dos seus sentimentos e da sua sexualidade.
Tal como se passou com eles, também elas resolveram finalmente quebrar o seu
silêncio. Aceitaram falar um pouco de si, rompendo assim com um secretismo que
desde sempre as vinha acompanhando.
Tiveram aqui a palavra, disseram o que tinham a dizer. Uma delas quis
inclusivamente identificar-se.
São nove entrevistas que se pretenderam informais no tom, mas nem por isso menos
sérias na abordagem das questões, e sobretudo despidas de preconceitos. Também
aqui a intimidade é chamada pelo nome que tem, sem falsos pudores.
Foram entrevistadas mulheres de grupos etários que vão dos dezanove aos sessenta
e cinco anos, com estatutos sócio-profissionais muito diferentes, mulheres
diferentes até na cor da pele, com opções políticas e religiosas muito
diversificadas. Estão presentes mães de família de aspecto conservador e está
uma activista política de esquerda. Estão católicas praticantes, uma delas
esteve quase a ser freira, está uma meia-judia, está uma panteísta e uma ateia
confessa.
Nalguns pontos assumem, no entanto, posições convergentes: à semelhança dos
homens, todos elas entendem que a homossexualidade é uma característica que
nalguns casos surge logo na infância, noutros casos só muito mais tarde se
revela, mas é qualquer coisa que nasce com o indivíduo. Há quem tenha tido a sua
primeira experiência aos dez anos de idade, há quem a tenha tido aos quarenta e
oito.
Todas elas garantem que as sáficas portuguesas são muitas. Ninguém sabe quantas
serão ao certo, mas de acordo com estes depoimentos são muito mais numerosas do
que geralmente se imagina. Algumas foram ou são casadas, três delas têm um ou
mais filhos, outras tantas gostariam de os ter tido.
Todas elas têm códigos de valores e todas elas fazem conceitos morais da vida.
Todas elas parecem absolutamente libertas de qualquer sentimento de culpa em
relação à sua orientação sexual, todas elas estão perfeitamente satisfeitas com
a sua condição de mulheres e com a sua condição de sáficas.
Um ponto em que parecem discordar: a designação a adoptar. Há as que aceitam com
agrado a palavra lésbica, há as que não querem nem ouvir pronunciá-la.
Quem são elas? Pessoas comuns. Pessoas, apenas pessoas que quiseram falar um
pouco de si próprias. Talvez seja... essa rapariga que vai sentada ao seu lado
no autocarro ou no metro.
* Rapsódia em Technicolor
Teresa Mascarenhas
Prosa poética, 1991, Edições Escritor
Prémio Literário Portucel 1991
Apresentação com texto introdutório de Baptista-Bastos
Seleccionado para as Bibliotecas Gulbenkian
sinopse
Um exercício literário que é a colagem de textos sem ligação aparente, que desta
forma se prestam a uma infinidade de leituras e interpretações possíveis.
crítica
"(...) Um texto de uma mulher que se quer autêntica". Diário Popular,
31.05.91
"(...) Um texto intensamente bem escrito, bem planeado, bem fantasiado. Li
o livro e recomendo-o com veemência. Para que conste. Baptista
Bastos
"Um momento de poesia. Único. Subversivo. Glorioso!" Ana Macedo
e Sousa
"Uma Autora que é o Stockhausen da nossa Poesia" Helena Prista
Monteiro
"(...) Um discurso aparentemente de excesso, em que nada é deixado ao
acaso, em que cada explosão acontece no sítio certo. Vence até uma certa
nostalgia que teima em aparecer aqui e além."
Maria Teresa Horta
"Um livro fortemente marcado pela subversão ao nível da forma, e pela
poesia ao nível do conteúdo, das ideias e das imagens. Uma experiência cultural
transformada em prosa poética."
Gilbert Ross
excerto
Esta é a noite parada no quieto tempo das coisas. Alegria? Ou tristeza? Ou
brilho? De qualquer forma, um peso sobre o peito. Noite pesada, e grossa, e
suja, e feita de todos os ruídos a arranharem-me a alma de mármore. Ninguém
acredita, mas é verdade, a minha alma é feita de mármore cor-de-rosa. É igual à
fácil claridade dos pássaros brancos e brandos, inexplicáveis como os teus dedos
na noite tacteanto o meu corpo, devagar, como se sonhássemos, ou como se
estivéssemos ali, à espera da morte ou de um assobio que nos rasgasse as
entranhas. Hoje, Pico Everest, e eu a despir-me nas vertigens do suco do meu
canto às narcejas. Sternsingen. Ah, que vontade de rir! A arrancada é lá para o
meio dia, when all cows jump over the moon. De lá de onde os píncaros da noite
me eram claros e agrestes, e doces de tão negros, como os teus mamilos, recantos
do teu corpo de jasmim. Era o violeta que inventei com este sorriso que é o meu.
Fui daqui com o fulvo Siegfried, laço branco se faz favor, até à Côte com Eva
Braun. Perdemo-nos no labirinto de Creta, saímos de cesariana luzidamente
escoltados por um regimento de guardas petit-suisse de riscas espalhafatosas
(signé Michelangelo-couture), na volta demos um saltinho até ao harém do Dr.
Doolittle, ainda parámos em Azeitão, no moscatel, enfim, olha, foi uma epopeia.
Sapatos de verniz, é com casca de banana que se limpam, não é? Botinhas de
polimento como as de João Bafodeonça. Também já vi um cacho de banana macaco a
tocar piano, tem a sua graça, era aí que eu queria chegar. E que tal se a madama
fosse tocar para casa do diabo mais velho, heim? Oh meu amor adorado, mando-te
aqui todos os jinhos e mais jinhos do Fernando. Encontro da minha voz, dentro,
longe, estrondo alheio a mim. Ecoo-me pelo túnel do meu amar-te e estar só. A
violência contida a rebentar de um amor ainda quase mentira. Pelo teu corpo
percorro as mãos feitas de todas as cores do amanhecer. Que tolice, quem é que
disse que a Madame Butterfly morreu? Caras ou coroas? De linho te vesti...
Mozart era um Extra-Terrestre
Prosa Poética, 1995, Edições Fora do Texto
Apresentação - Prof. Dr. Luís Fagundes Duarte
Notícia e Entrevista no Programa Acontece
sinopse
A continuação de Rapsódia em Technicolor
crítica
"(...) Tudo isto como se estivessemos a assistir a um festival de fogo
preso, e por ali ficássemos vendo os efeitos a desfazerem-se no ar à nossa
volta."
Prof. Dr. Luís Fagundes Duarte, U. Nova de Lisboa
"(...) Um livro diferente do que se vê por cá, nas nossas letras
narrativas. (...) um livro cheio de ritmo, com passos muito belos e de
registo-outro.
Profª Drª Ana Luísa Amaral, F.L.Porto
excerto
Também nunca percebi por que razão o Pessoa da Brasileira do Chiado foi para ali
posto tão triste, tão sózinho, havia que encher aquilo tudo de malmequeres, ou
então era porem-se lá mais cadeiras, uma para a Amália (vénia), outra para o
Professor Agostinho da Silva (outra vénia), que por acaso também era Aquariano,
outras tantas para a Maria Helena Vieira da Silva, para o Damião de Góis, para a
Rosa Mota, para o Amadeu de Sousa Cardoso e para a Maria João Pires (clap clap
clap). Eu sei que já lá está uma cadeira sem ninguém, mas essa... é para quem a
apanhar. Sei de muito boa gente que a queria, até eu, há anos que estou de dedo
no ar! Olhem, a gente podia era formar uma cooperativa, e então era assim, uma
dia sentava-se a mula, noutro dia sentavamo-nos nós.
Aquilo foi um dia, safa, parecia que andavam as Erínias todas à solta! Meu amor,
tu és um colírio para os meus olhos, e um delírio para o meu corpo, a minha
alma, o que tu quiseres. Passarinhos a bailar, mal acabam de nascer, com o
rabinho a dar a dar, piu piu piu piu. E viva la donna romagnola che senza
l'amica si sente sola! Olha, aqui passas uma geratriz pelo eixo do Giordano
Bruno, e vais parar à terra das avestruzes, que por acaso são uns pássaros um
bocado abstrusos. Deixo-me possuir, lembro-me fervorosa, furiosamente. O Hamlet
passou-se da cabeça, isso toda a gente sabe. Eh Zagal! Vê lá, vê lá, saltei mal?
Um dia numerosa cavalgada apeia-se ao portão. Apalpa as mamas à criada, entra
pelo salão. Em cima da chaminé estava uma moeda de cinco tostões, que foi o
ratinho que lá deixou quando mudei o meu primeiro dentinho de leite. Geen geld,
geen switzers. Des cheveux bleus, à force d'être noirs. Os miolos a ferver, as
meninas a aprender, oração relativa copulativa, gerundiva e com muita choucrute.
This is the end of the picated. O que é que a baiana tem? Tem a tonga da mironga
do kabuleté. E dentro su alma está gritando "se me vejo livre desta, até
penso que é mentira!". Miguel, ou um cisne? Lohengrin, ou um amor adiado
até anteontem? O Navio Fantasma, ou os nossos passeios de barquinho a remos, em
Sezimbra, ao largo do pontão? A orangerie ou o teu atelier nas escadinhas da
bica? O coro dos peregrinos, ou o yesterday? O santo graal, ou os vodkas com
laranja no Bar do Bob? Quiero que me deen mis flores, señores, antes de mi
funeral. Y tambien yo, amigo, tengo poco en el bolsillo, y muchas ganas de
vivir... O arco iris dos meus olhos é a coisa melhor que tenho para oferecer-te.
Porque me sagrei tua irmã na carne e no infinito, e porque não sei dizer-to com
palavras. Por tudo isso, deixa que o mundo à nossa volta continue a esboroar-se
em teorias complicadas e podres, beija-me apenas. Lá vou, com os meus sapatinhos
Chicco. Arre burro! A vantagem deste tipo de textos é que são muito
fechecléticos. Até que a morte nos separe, so help me God. Dizem que três foi a
conta, foi a conta que Deus fez, esta empresa será tonta, mas é por conta dos
três - Inch Allah! Faz o que quiseres, mas não me espantes as galinhas.
Duocentésimo quadragésimo nono mistério. Neste mistério contemplemos o casamento
da Verónica com o Cireneu. Eu não percebo, de um lado dizem Ave-Maria, do outro
respondem que é Santa Maria, mas porque será que eles não se poem todos de
acordo? Compreme usted este ramito, que no vale más que un real, compreme usted
este ramito, compreme usted señorita... Bom, já chega, olha tu tem cuidado, que
parece que andam praí uns fulanos feitos parvos, aos tiros, é um tal dum
Verlaine, e um tal dum Mersault, vê lá! Ganhaste uma medalha de bom
comportamento? Deixa estar, meu amor, que se Deus quiser há-de ser a última.
Perdizes embalsamadas? Eu cá vou caçá-las à Índia. E bendito seja São Francisco
Xavier, que comecei este livro Duquesa com Excelência, e acabei-o Raínha com
Majestade. Vocês se quiserem continuem a obedecer, acefalamente, de patas para o
ar, como o Kafka, coitado, eu por mim qualquer dia ponho-me a andar mas é daqui
para fora. Ah, o vento a soprar-me aos ouvidos, a entranhar-se-me na alma... Ah,
esta vontade de morrer... Pois, morrer... É um bom tema de reflexão. E depois
faz cá uma destas sedes... passa aí a botelhita, que eu morro, mas de pé, de pé,
como as árvores. Pronto, beijinhos, e portem-se mal se puderem.
Mentirosos, Charmosos e outros Malandros
Contos, Inédito
sinopse
Uma dezena de contos de final imprevisto, talvez um pouco perversos, ou um
retrato mordaz mas bem humorado desta novíssima sociedade em que vivemos,
semeada de gente que vive de mentiras construídas em cima de mais mentiras.
excerto
O querido líder
Rapaz esperto, o Carlos Alberto. Esperteza saloia, talvez, mas que tem ajudado
muito boa gente a safar-se nesta vida tão difícil. Ninguém sabia muito bem de
onde era natural, nem ele estava muito interessado em contar. Não valia a pena
falar de coisas tristes. A verdade é que tinha nascido algures por aí, num
subúrbio qualquer, tinha estudado, tinha marrado que nem um bruto, e aos vinte e
três anos era advogado. Inscreveu-se no Partido, fez o que foi preciso para
chegar a deputado.
Não foi fácil. Ao princípio pensou que era só uma questão de se juntar aos
lobbies de quem tinha o poder nas mãos, mas cedo percebeu que não. Não era assim
tão simples. Ele não era ali mais do que um peão, e cedo percebeu que ia ter de
penar muito, muito mesmo, quem sabe se para além do limite das suas forças, até
conseguir que lhe dessem um empurrão.
Ao longo de anos e anos sofreu, suportou vexames e desaforos de toda a espécie,
militou com uma energia bem estudada, discursou em comícios e campanhas, engoliu
verdadeiros sapos vivos, até que finalmente, um belo dia, quando já nem ele
próprio acreditava, deu consigo finalmente eleito. Era Deputado à Assembleia da
República. Pelo PDL, o Partido Democrático Liberal. O seu Partido há mais de
vinte anos.
A partir desse dia acreditou que nada lhe estava vedado. A partir desse dia o
Carlos Alberto começou a pensar a sério numa carreira política de primeira
linha. Era chegado o seu momento, dizia ele para a mulher, e ele tinha de o
agarrar com as duas mãos.
Passou a dormir quatro, cinco horas por noite. Tinha de trabalhar, trabalhar
muito, mas havia de conseguir. Chegar a Ministro era agora a sua meta. Depois
logo se veria. Talvez Primeiro Ministro, e quem sabe até... Presidente da
República!
Não ambicionou vir a ser "Presidente dos Estados Unidos da Europa",
sabe-se lá porquê. Não se lembrou, talvez.
E enquanto pensava nestas e noutras coisas, o seu eu mais íntimo como que
inchava, enchia-se-lhe a boca de água... estremecia um pouco e sorria. Havia de
lá chegar.
- Amélia, filha, está tudo bem? Olha, eu hoje não vou jantar. Pronto, adeus,
beijinhos.
Dizia ele à mulher, pelo telefone, todos os dias, invariavelmente, por volta das
seis e meia, sete da tarde.
Não era que ele pensasse que a mulher pudesse estar à espera dele, mas fazia
parte do seu jogo. Era a forma que ele tinha de lhe dizer "Não te ligo
nenhuma, mas apesar de tudo ainda sou o teu marido." E era também a forma
que ele tinha de dizer a quem quer que estivesse por perto: "Sou um homem
de respeito, casado e pai de filhos, e não me esqueço das minhas obrigações de
chefe de família". Era uma coisa que caía sempre bem ao pé de quem quer que
fosse.
Mas era tudo um bluff. Carlos nunca jantava em casa. Tinha reuniões do Partido,
jantares com outros políticos, festas, reuniões de tudo aquilo que o pudesse
promover.
A mulher e os filhos já pouco se importavam com isso. Os filhos passavam dias e
dias sem o ver. Quanto à mulher, há anos que o Carlos e a Amélia dormiam em
quartos separados.
Às vezes ele chegava, aí pelas duas, três da manhã, entrava sem fazer barulho,
ia direito para o quarto, dava duas voltas à chave e lá ficava.
- Mas o que é que tu ficas a fazer lá fechado no quarto? Perguntou-lhe um dia a
mulher. Se ninguém cá em casa dorme com a porta do quarto fechada à chave...
- Eu não quero ser incomodado! Respondeu ele. Mas tu escusas de estar para aí
com macacos no sótão! Eu vou um bocado para a internet, e depois vou dormir. Eu
não durmo em casa todas as noites?
- Dormes... respondeu a Amélia que há uns meses atrás se tinha posto à espreita,
a ver se ele entrava às escondidas com alguma mulher, o que explicaria tudo, e
ao fim de uma semana inteira de vigília tinha concluído que não; ele entrava
sozinho e fechava-se no quarto. Não acontecia mais nada.
- Então, o que é que tu queres? Eu gosto de trabalhar em silêncio, tenho muito
que fazer pela minha carreira política, e quero estar à minha vontade, pronto. É
por isso que me fecho à chave, e agradecia que tu não me voltasses a maçar com
parvoíces, porque eu não tenho paciência nenhuma para te aturar.
Aquele quarto era uma espécie de santuário privativo do Carlos. Ninguém estava
autorizado a lá entrar, porque ele não deixava. E não era por nenhum motivo em
especial; era mesmo só uma mania dele. O quarto era... um quarto convencional,
com uma mobília convencional: cama, mesa de cabeceira, cómoda e guarda-fatos;
tinha o computador e uma estante com livros.
Mas tinha ainda uma outra coisa: um armário de ferro fechado a cadeado. Era o
armário onde guardava os seus papéis, cartas, todos os documentos que tinha
vindo a acumular ao longo dos anos, tinha ele um dia explicado à mulher, e que
ainda um dia haviam de lhe ser muito úteis, quando chegasse a Primeiro
Ministro.
Na realidade, aquele armário, para além de uma prateleira com documentos,
cartas, listas e contactos úteis de pessoas que estavam nos inúmeros lobbies
existentes no país, informações capazes de comprometer amigos e inimigos, estava
todo ele bem recheado... daquilo que menos se esperaria:
Abria-se a porta... e era um nunca mais acabar de cabeleiras, vestidos, peças de
lingerie, sapatos de salto alto, produtos de maquilhagem, enfim, mil e uma
coisas que lhe permitiam, noite após noite, ir dando resposta a uma sua
necessidade interior que era mais forte do que ele, e que nem ele próprio sabia
bem explicar.
O Carlos não era homossexual, nunca na vida se sentira atraído por outro homem,
mas tinha esta "panca": adorava vestir-se de mulher.
Este era o seu ponto fraco, um segredo que só ele conhecia.
Depois ficava horas esquecidas deitado na cama, vestido de fada, de Maria
Antonieta, de freira, de capuchinho vermelho... e era isso que o estimulava, que
o ajudava a pensar, a fazer planos para o futuro.
Até que um dia, enquanto se via ao espelho, dentro de um baby-doll cor-de-rosa e
chinelinhas de quarto com pom-pom a condizer, decidiu que aquela obscura vida de
deputado não podia continuar. Ele tinha nascido para voos mais altos, tinha
nascido para o sucesso. Tinha de disputar a liderança do Partido. Era isso.
Tinha de apresentar uma estratégia completamente nova, e sair vencedor do
próximo Congresso, daí a dois meses. Mas como? Pensava ele.
Conseguiu delinear a estratégia num dia em que vestiu uma roupa mais excitante.
Era uma peruca ruiva e um fato composto por calções e colete em cabedal preto
com pregos aplicados e botas a condizer. Era a sua roupa de domadora de tigres.
Neste preparo se sentou ao computador, escreveu os disparates que lhe vieram à
cabeça, citou teóricos para todos os gostos, do Kapital até ao Mein Kampf
passando por muitos outros, e acabou por ficar com um monte de banalidades,
disparatadas mas altissonantes, capazes de impressionar qualquer distraído.
Nessa noite adormeceu satisfeito. Tinha ali uma obra-prima de estratégia
política capaz de fazer dele aquilo que tanto desejava: Presidente do Partido.
Novos Contos de Cantuária
Teresa Mascarenhas
Ficção, Inédito
sinopse
À semelhança dos Contos de Cantuária, de Chaucer, também nesta obra um grupo de
peregrinos se junta em amena conversa. Não irão sobre cavalos e mulas a caminho
de Cantuária, mas num autocarro de aluguer, direitos a Fátima. Pelo caminho cada
um deles irá ao microfone contar uma pequena história. Um retrato bem humorado
de um Portugal camponês que ainda existe, existe sim.
excerto
Mas agora me lembro! Eu devia ter começado pelo senhor padre Modesto Raposo,
homem de muita virtude, bondoso e paciente, que o digam os seus paroquianos.
Especialmente a Joaninha do Adro, que por vezes já fora de horas se ia confessar
a casa dele, e durante toda a noite ela se confessava, e ele a ouvia, paciente,
e só de manhã ela se retirava.
Era também homem de muito saber, e se por vezes saltava ou trocava algum verso
em latim, não era por ignorância ou desinteresse, mas sim porque o seu espírito
se perdia no doce deleite da presença do Senhor. Era daqueles padres que falam
sem levantar os olhos do chão. Homem discreto que era, discretamente se
apresentava, de fato escuro e cruz na lapela. Até durante a missa, sobretudo
quando o Chico Pielas pousava a cestinha das esmolas no degrau do altar, os
olhos do Padre Raposo parecia que não conseguiam despregar-se do chão. É que os
pobres da Paróquia eram tantos, e o dinheiro tão pouco, suspirava ele...
Tinha convidado também o cura de S. Bartolomeu, o padre Julião Rebumba. Homem
alegre mas também muito educado. Se em casa de algum paroquiano lhe punham na
frente um leitão assado, e ele o devorava inteiro e sem demora, não era por gula
ou intemperança, mas apenas para não ofender aqueles que tão gentilmente o
recebiam. Era o padre Rebumba um homem folgazão e cheio de espírito. Até se
contava que dissera uma vez, em casa do Manuel Torquato, depois de comer um perú
inteiro, chupar os ossos e lamber ruidosamente os dedos: "Eh pá, estava
capaz de comer outro passarinho igual a este!"
Trazia a sua sotaina melhor. Tinha uma outra, já um bocado surrada; para andar
ali pela vila ainda passava, mas esta sempre era outra coisa. O pior é que
parecia que lhe estava um bocadinho apertada, de forma que ele, a suar, lá
desapertou o colarinho, lá ficou mais aliviado, e o colarinho de plástico branco
lá ia a badalar, a contrastar com o seu rosto muito vermelho, de afogueado e
prazenteiro que ia.
Fátima
Trabalho de Pesquisa, 1995, Edições Temas da Actualidade
INTRODUÇÃO
Fátima parece estar envolta numa aura de mistério à qual a maioria das pessoas
não consegue ficar indiferente.
Para além da Basílica, construída à maneira do Estado Novo, de gosto mais do que
duvidoso; para além das lojas atafulhadas de plasticos e de quinquilharias, e
caras, ainda por cima; para além de um urbanismo perfeitamente surrealista; para
além das manifestações de religiosidade popular de uma ou outra pessoa que se
deixa tomar de pura histeria, e de outros tantos que de joelhos ou mesmo de
rastos fazem o longo percurso que vai da Cruz Alta até à Capelinha, para além de
todo esse lado verdadeiramente deplorável, o que é exactamente Fátima?
Poucas serão as pessoas, crentes ou não, que nunca se tenham interrogado sobre
as aparições de 1917. O atractivo do fenómeno, aquilo que o torna fascinante é
justamente a sua extraordinária inverosimilhança.
É tudo tão estranho que até parece verdade...
Muitos gostariam de ter a certeza sobre a veracidade ou sobre a inveracidade das
aparições de Fátima. Escreveram-se livros que provam a verdade do fenómeno;
outros se escreveram que provam que tudo não passou afinal de uma representação
bem orquestrada que viveu da ingenuidade de três miúdos e de um confessor que
lhes sabia ensinar as lições. Tantos livros se escreveram, e afinal nem uns nem
outros conseguem provar coisa nenhuma.
Mas a Fé, dizem os teólogos, é justamente a capacidade de acreditar naquilo que
não pode ser provado.
Entretanto, oitenta e cinco anos decorridos e após várias visitas Papais, a
Igreja Católica já beatificou mas ainda não canonizou os dois videntes
Francisco e Jacinta Marto, nem declarou as aparições de Fátima (ou as de
Lourdes) dogma de Fé. O Papa, pessoalmente, pode crer nas aparições, mas a
Igreja Católica, enquanto instituição, ainda mantém as suas reservas.
As pessoas não andam à procura de razões que desmintam ou contrariem as suas
próprias crenças pessoais, adquiridas ao longo de toda uma vida. Mesmo a
aceitação de ideias novas numa atitude de completa abertura mental é um acto de
verdadeiro heroísmo intelectual de que muito poucos são capazes. Por isso ao
comprar um livro sobre Fátima o leitor comum espera provavelmente que este lhe
venha trazer uma reconfirmação, uma prova que venha reforçar as suas próprias
convicções, sejam elas no sentido de acreditar ou no de não acreditar. Um livro
capaz de provar, em definitivo, aquilo que eles próprios pensavam já sobre a
verdade ou a não verdade das aparições. Porque afinal todos nós gostaríamos de
ter a certeza.
Este livro compõe-se de doze entrevistas obtidas ao longo de quatro persistentes
dias junto ao Santuário da Cova da Iria e não tem a pretensão de dar provas ou
certezas a ninguém. Apenas alguns momentos de reflexão e uma conclusão talvez
inesperada.
Tratando-se de um livro sobre Fátima, a primeira palavra foi dada à Igreja
Católica, independentemente de concordarmos ou não com as suas posições. Assim,
começámos por entrevistar um alto dignitário da Igreja Católica, de
nacionalidade italiana, e também uma religiosa portuguesa. Um e outro aceitaram
prontamente dar o seu testemunho pessoal.
Já a abordagem dos peregrinos acabou por ser bastante mais difícil do que o
esperado. Foram muitas as pessoas que se recusaram a falar, sobretudo entre os
portugueses. Não tinham tempo, não tinham nada a dizer, tinham pessoas à espera,
não gostavam de microfones, tinham de ir almoçar...
Esse facto, por si só, daria talvez matéria suficiente para uma tese em
psicologia. Por que motivo não quiseram falar os portugueses? Por pudor em
relação aos seus sentimentos religiosos? É possível, embora pareça um pouco
estranho. Afinal, uma crença religiosa não é coisa que envergonhe ninguém.
O verdadeiro motivo acabou por me surgir de uma forma cada vez mais clara à
medida que ia entrevistando aqueles que aceitaram falar: é que de facto ninguém
tem a certeza de coisa nenhuma. As pessoas que acreditam não sabem dar uma
explicação racional para a sua fé. Recearam que lhes fossem pedidas explicações
para aquilo que é do domínio do inexplicável. Não foram capazes de dizer:
"Eu acredito. Não sei se é verdade ou mentira, mas acredito porque me faz
bem acreditar".
As pessoas que quiseram ser entrevistadas, provenientes de espaços geográficos e
culturais diversificados e de grupos sociais e etários também muito variados,
não só deixaram o seu testemunho sobre o fenómeno de Fátima propriamente dito
como aceitaram ainda dar a sua opinião sobre as actuais posições da Igreja
Católica em relação a questões tão polémicas como o celibato sacerdotal, a
ordenação de mulheres, a contracepção, o aborto, a eutanásia, a
homossexualidade. Em relação ao fenómeno de Fátima afirmam-se crentes. Mas
embora a maioria deles não o admita, são crentes que certamente gostariam de ter
uma maior certeza, na medida em que essa certeza viria trazer uma nova força aos
seus sentimentos religiosos. E no entanto... sobre os seus depoimentos pairam as
sombras mal disfarçadas de muitas dúvidas.
Entrevistaram-se comerciantes locais que defenderam o seu direito ao comércio e
contaram as memórias antigas da família sobre o ano de 1917.
Mas não faria sentido que este livro terminasse sem que se desse a palavra
também à parte contrária. Assim, entrevistaram-se também duas pessoas não
crentes que aqui deixaram os seus depoimentos. Também estes, os não crentes,
gostariam provavelmente de ter a certeza das suas razões. E no entanto... não só
admitem que ali se terá passado um qualquer fenómeno que não sabem explicar,
como podemos ler nas entrelinhas dos seus depoimentos uma espécie de mal
disfarçada tristeza, uma vontade de acreditar que só não acredita porque a razão
lhes fala mais alto.
Com duas raparigas, uma empregada no comércio local, uma outra empregada na
indústria hoteleira, se passou entretanto um outro fenómeno: uma e outra
aceitaram ser entrevistadas, uma e outra pareceram satisfeitas com o facto de
irem ser pagas pelo seu tempo e pelo incómodo. À hora marcada nenhuma das duas
compareceu. Tal é o ambiente que se vive nos bastidores da Fátima de hoje, uma
gigantesca máquina de fazer dinheiro. O que aliás não deve influir na nossa
interpretação dos fenómenos de 1917. Uma coisa é o significado espiritual que
uma certa e determinada mensagem pode assumir para as pessoas que crêem nas
aparições e visitam o santuário, outra coisa é o mundo dos negócios e as suas
aberrações.
Finalmente, a prometida conclusão: os fenómenos que nos rodeiam acabam por ter a
dimensão de cada um de nós. Se eu creio nas aparições de Fátima, se as
interpreto de acordo com a minha própria sensibilidade, se consigo que sejam
para mim veículo de progresso espiritual, então sim, as aparições são
verdadeiras.
Se pelo contrário aquele tipo de vivência, aquele tipo de espiritualidade não me
diz nada nem contribui em nada para o meu progresso espiritual, então tudo não
passou de pura invenção.
De facto, ninguém pode ter a certeza absoluta. Provavelmente nem a própria
Lúcia. Mas será que importa ter a certeza absoluta?
Amai-vos Uns aos Outros
Trabalho de Pesquisa, 1999, Edições Golfinho
sinopse
Bispos, padres, religiosas e leigos. Cerca de trinta depoimentos.
Aquilo que a Igreja Católica tem a dizer sobre si própria.
Um livro que a Igreja Católica Portuguesa elogiou e recomenda com veemência
excerto
Dom Manuel Martins
Primeiro Bispo de Setúbal
- Senhor Bispo, neste mundo em que estamos, que às vezes parece não se lembrar
de Deus, e em que por todos os lados temos notícias de guerras, de violência, de
sofrimento, o que é que o Senhor Bispo gostaria de dizer a todos aqueles que
sofrem?
- É verdade que há muitas sombras neste nosso mundo e todas elas resultantes das
agressões à dignidade do Homem.
O Homem é o centro do mundo e deve constituir para todos - sobretudo para
aqueles que ocupam a cadeira de qualquer poder - o critério de tudo quanto se
sonha, promete, projecta e faz.
(Quase) Podemos dizer (os teólogos que tapem os ouvidos) que a própria vida de
Deus, a partir da Criação e mais da Incarnação, está condicionada à vida do
Homem.
Com a marcha da História, fomos também avançando na descoberta da dignidade do
homem, até chegarmos à proclamação desse documento verdadeiramente evangélico,
que é a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Alguém "ouviu" Deus
desabafar, a seguir ao protocolo da sua assinatura:
"Depois do Sermão da Montanha proclamado por Meu Filho Jesus, nunca os meus
olhos contemplaram coisa tão bela".
Quem tiver ouvidos para ouvir, olhos para ver e coração para sentir, não terá
dificuldade em descobrir "sementes de Deus" espalhadas por tudo quanto
é sítio e que nos permitem cantar a esperança.
A nossa terra está, realmente, cheia de testemunhos de caridade, de
solidariedade, de amor, silenciosos a maior parte, a olho nú inúmeros.
No meu ministério pastoral - pároco e bispo - eles são tantos, os silenciosos,
que quase não teria tempo para os escrever; quanto aos outros, estão à vista: só
em estruturas de assistência levantadas e mantidas pelo coração maternal da
Igreja, quantas poderemos contar? Elas são largas, mesmo largas centenas.
É verdade, infelizmente, que mais nos predispomos para reparar e assinalar o
estrépito da "árvore" que cai (e quanto maior, melhor!) do que a
beleza do jardim e da flor que todos os dias crescem!
É mesmo verdade; repare-se nos noticiários das nossas Tvs e tomemos nota de
quantas notícias boas nos dão... e sabendo nós que elas são tantas e de tanta
beleza.
Com os olhos da Esperança - e da verdade! - bem abertos, bem podemos proclamar,
como João Paulo II que, perante tanta coisa boa, o mundo não está perdido, mas
que, isso sim, estamos a testemunhar a madrugada de um mundo novo...
As Pontes que nos Unem
Ana Macedo e Sousa
Poesia Mística, Edições Golfinho, 2001
sinopse
Um livro de poesia que é o resultado dos estudos da autora nos campos do
esoterismo e da Teosofia - Religiões Comparadas. Mais do que qualquer outra
coisa, é um pequeno livro de meditação onde cada um encontrará, certamente,
algumas respostas para as questões que nos dias de hoje a cada momento nos
preocupam, ou deveriam preocupar. Para onde vai este mundo, onde os homens
parecem ter perdido todo o sentido de fraternidade universal, todos os elos
naturais com os animais, as plantas, as pedras, os outros homens seus irmãos.
excerto
O solo está fértil
para receber as sementes.
Abundante colheita
de gente
portadora
de nova mentalidade
que erguerá os pilares.
Sustentáculos
da ponte
que unirá
a humanidade.
São mais os traços
comuns
a cada Fé
do que as aparentes
diferenças.
As Religiões Alternativas em Portugal
Teresa Mascarenhas
Trabalho de Pesquisa, Inédito
INTRODUÇÃO
Depois de dois volumes dedicados à Igreja Católica, com todas as suas virtudes e
defeitos, pareceu-me que faria sentido dar também a palavra às outras religiões
existentes em Portugal.
Tarefa complicada. Sobretudo pela dificuldade em traçar uma linha divisória
entre religião e seita, ou pelo menos em traçá-la com a necessária seriedade.
Porque não é o número de fiéis que faz a diferença. Se assim fosse, os judeus, o
Povo Eleito, seriam a última das seitas, com os seus não mais de mil e
quinhentos fiéis em Portugal.
Também não é a aparente sinceridade das convicções dos membros de uma Igreja que
nos ajuda a traçar a linha separadora. Todos sabemos que não é assim. O
fanatismo religioso é e sempre foi uma das mais terríveis pragas da humanidade.
Por outro lado, e se formos à etimologia da palavra, o próprio cristianismo é
uma seita, na medida em que se afastou, ou seccionou, do judaísmo.
No meio desta dificuldade, optei por lidar com o problema da única forma
possível: não fazendo distinções nem juízos de valor, dando-lhes a todos a mesma
atenção e a mesma importância, deixando que seja o leitor a tirar as suas
próprias conclusões.
Ouvi o representante dos Adventistas do Sétimo Dia, aliás amabilíssimo, dizer
que a alma foi uma invenção de Platão, com a mesma cara com que ouvi o
representante dos Mormons dizer que Jesus Cristo durante a sua estadia na terra
visitou o Continente Americano. Ouvi as coisas mais inesperadas, mais
surpreendentes, com o mesmo respeito com que ouvi a representante da Comunidade
Judaica dizer que depois do cativeiro no Egipto, depois da Inquisição, depois do
Holocausto, a única coisa que os judeus desejam é que os deixem viver em paz.
Não faltam as religiões em Portugal.
Escolheu-se pois uma dezena de grupos religiosos considerados representativos, a
saber: não cristãos, ou seja, judeus, muçulmanos, hindús e budistas, e cristãos:
grupos saídos do movimento da Reforma, ou seja, anglicanos de inspiração
luterana e protestantes de inspiração calvinista, outros de formação mais
recente.
Mas a conclusão mais curiosa que tiro deste livro prende-se com o número de
fiéis que os grupos religiosos entrevistados dizem congregar. A acreditar nos
números fornecidos, nalguns casos um pouco inflaccionados (o leitor atento
facilmente dará por isso), mesmo assim os adeptos de todas estas religiões, ou
seja, os não católicos, todos somados, não chegam a totalizar três por cento da
população portuguesa.
Pergunto-me: onde estarão os outros noventa e sete, que ninguém os vê na Missa
ao Domingo?
Em conclusão, setenta ou oitenta por cento dos portugueses, provavelmente
baptizados na Igreja Católica, estão muito mais interessados em dormir, ir às
compras, fazer criancinhas, ir à pesca, ganhar dinheiro ou ver televisão, do que
na prática de uma religião, qualquer que ela seja.
As Práticas do Ocultismo
Teresa Mascarenhas
Trabalho de Pesquisa, 1995, Edições Temas da Actualidade
INTRODUÇÂO
Arderam ao longo de séculos nas fogueiras da Santa Inquisição, juntamente com
hereges, judeus, homossexuais e outros amaldiçoados da Igreja Católica.
Bruxas, magos, adivinhos, cartomantes, feiticeiras, astrólogos, alguimistas,
pitonisas, ciganas quiromantes, fazedores de poções. Alguns ficaram na História.
Merlim, Cagliostro, Rasputine, são fáceis de encontrar em qualquer enciclopédia,
para além de constituírem o tema central de uma vasta bibliografia que lhes é
dedicada.
De Alexandre Magno a Ronald Reagan, passando por Nicolau II e muitos outros,
inúmeros Reis e Chefes de Estado recorreram aos seus conselhos se não
regularmente pelo menos na hora das grandes decisões, o que não impediu que
fossem perseguidos ao longo de séculos e ainda hoje mal vistos por muita gente.
Que estranhos poderes possuem para que por um lado as instituições políticas e
religiosas tanto os tenham temido, e por outro tantos poderosos lhes confiem os
seus destinos?
Numa tentativa de levantar uma ponta do véu de mistério e silêncio que os cobre
e os mergulha na sombra de segredos com cheiro a enxofre, fizeram-se alguns
contactos. Cerca de uma dúzia mostrou-se indisponível para falar, e nem sempre
polidamente. Uma das pessoas contactadas chegou a responder: "Minha
senhora, eu gasto trezentos contos por mês em publicidade, não preciso disso
para nada". Outros, pelo contrário, aderiram à ideia, fizeram questão de
dar a cara, garantiram nada ter a esconder. São oito pessoas provindas de grupos
etários, sociais, culturais e até raciais muito diferentes, com sensibilidades e
opções religiosas muito variadas, pessoas que cultivam uma imagem e um ambiente
que vai do mais formal ao mais exótico, que cobram preços muito diversificados
que vão dos três mil aos quinze mil escudos por uma consulta, e que aqui
quiseram deixar o seu testemunho.
Alguns trabalham com computadores e cálculos astrológicos exactos, outros
confiam apenas na sua própria intuição e nos poderes sobrenaturais que Deus lhes
deu. São sobretudo pessoas com "especializações" muito diferentes
dentro do ocultismo: Astrologia, numerologia, cartomância, quiromância,
cristalomância, vidência por fotos, magia, búzios e medicina natural, eis
algumas dessas "especializações". Todos eles negaram em absoluto ter
alguma vez utilizado, ou sequer tentado utilizar, poderes ou fórmulas mágicas
para fazer o mal.
Testemunharam ainda duas pessoas que quiseram falar da sua experiência enquanto
netos e bisnetos de pessoas ligadas a estas secretas artes, no primeiro caso uma
simpática e inofensiva curandeira de nome Maria que viveu perto de Mesão Frio,
noutro uma bruxa diabólica de nome Conceição que viveu em Loulé
Neste livro, como já vai sendo hábito nesta colecção, é ao leitor que cabe a
última palavra e a conclusão final.
O Fado
Teresa Mascarenhas
Trabalho de Pesquisa, 1996, Edições Temas da Actualidade
INTRODUÇÃO
Que o Fado é a forma que os portugueses encontraram para exprimir a sua
sensibilidade própria parece uma verdade indesmentível. Mas existe mais, muito
mais que pode e deve ser dito sobre o Fado. Que terá tido a sua origem no
momento em que os cantares árabes se encontraram com a poesia trovadoresca de
origem provençal, que terá sido embalado nas Caravelas a caminho do Brasil e ao
longo da costa de África, que terá recebido a influência de cantares negros como
os Lundums e dos pregões das varinas de Lisboa, que terá ganho uma forma mais
próxima da actual graças ao despique improvisado de versos atrevidos nos bairros
populares, terá sido forma de se contarem histórias acontecidas, uma espécie de
jornal cantado, "atravessou" o Estado Novo lambuzado de alguma
auto-comiseração, foi veículo de protesto político e é hoje aquilo que é, apenas
o Fado.
Houve populares que subiram a cantá-lo nos salões, nobres que desceram às ruas e
às tabernas.
Este livro é uma recolha de treze depoimentos obtidos junto de alguns
consagrados, seguramente algumas das melhores vozes do Fado dos dias de hoje:
Carlos do Carmo, António Pinto Basto, João Braga, Maria da Fé, Rodrigo, Nuno da
Câmara Pereira, Ada de Castro, Jorge Fernando, a par de outros talvez menos
conhecidos do grande público, mas a quem não seremos nós a retirar o mérito.
Ouvimos muito bom Fado no melhor ambiente de Lisboa, ouvimos o Fado que ouvem os
turistas que nos visitam, de melhor qualidade do que geralmente se imagina,
ouvimos o Fado Vadio numa curiosa Taberna dos Burros que fomos descobrir no
Bairro Alto, onde um dos fadistas não actuou porque não se conseguia lembrar das
letras e no fim a conta foi de cavalo para cima, o que não deixou de ter também
a sua graça. À boa maneira fadista.
Falou-se do Fado de outros tempos, evocou-se Maria Severa, Maria Ercília Costa,
Maria Teresa de Noronha, Alfredo Marceneiro, Carlos Ramos, Hermínia Silva e
Armandinho, nomes que o público amante de Fado provavelmente nunca esquecerá.
Por razões de saúde não foi possível a Amália conceder uma entrevista para este
livro. Foi-me no entanto pedido que transmitisse a expressão do seu carinho a
todos os fadistas portugueses e aos leitores deste livro em geral.
O Racismo
Teresa Mascarenhas
Trabalho de Pesquisa, 1996, Edições Temas da Actualidade
INTRODUÇÃO
Portugal, a Epopeia dos Descobrimentos, África, o Oriente, o Brasil, a
miscegenação das raças, a teoria dos brandos costumes... Tudo mentira. Em
Portugal existe racismo. Os portugueses são racistas sim. A experiência da
feitura deste livro foi perfeitamente reveladora a esse nível.
Os entrevistados são unânimes em admitir que sim, que Portugal é um País onde
existe racismo. Mas como se manifesta o fenómeno do racismo em Portugal? Das
mais variadas maneiras. Às claras, encapotado...
E no entanto... pessoas que inicialmente não tinham hesitado em admitir que de
facto existe racismo em Portugal, no momento em que foram convidadas a falar um
pouco mais sobre a sua experiência pessoal, nesse preciso momento fecharam-se,
tornaram-se sombrias, excusaram-se, disseram que no seu caso pessoal até nem
tinham muita razão de queixa. As pessoas passaram pelas humilhações mais
vergonhosas a que um ser humano pode ser sujeito, e dizem que não, que no seu
caso pessoal até nem têm muita razão de queixa. Porquê? Porque admiti-lo seria
mais humilhante ainda. Como se o mutismo e a não denúncia fossem a única forma
de conservar a gota de dignidade que os brancos ainda lhes não roubaram.
Curiosamente, as mulheres tiveram ainda mais relutância em falar do que os
homens. Quatro mulheres de raças não brancas prometeram dar o seu depoimento, e
no último momento recuaram, arranjaram desculpas, uma delas inclusive, de raça
negra, que se recusou a dar o seu depoimento, garantiu-me: Eu quando tenho
saudades de ver um preto basta-me olhar para o espelho, e pronto, tão cedo já
não preciso de voltar a vê-los na minha frente.
Este gravíssimo problema ao nível da auto estima, que existe talvez um pouco por
culpa de todos nós, cidadãos de todas as raças, parece repetir-se em muitos
casos como uma recorrência.
Curioso também que estas mulheres sejam, todas elas, pessoas com um estatuto
social muito diferente do das raparigas que chegam de Cabo Verde e vão trabalhar
em limpezas. Porquê as mulheres, e porquê mulheres que já são, por exemplo,
empregadas de escritório?
Talvez porque as mulheres tenham sido mais descriminadas ainda do que os homens,
talvez porque uma vez adquirido um estatuto sócio-económico de classe média haja
pressa, muita pressa, em esquecer as humilhações do passado.
Este livro começa com o depoimento de José Falcão, dirigente do S.O.S. racismo,
reúne em seguida os depoimentos de pessoas de raças variadas, de grupos etários
e sociais tão variados quanto possível, e termina com os depoimentos de Celina
Pereira, um dos maiores nomes da música africana em Portugal, e do General Di,
star do Rap.
Se alguns portugueses resolverem meditar um pouco sobre o assunto, e rever as
suas posições em relação a toda esta problemática, já valeu a pena fazer este
livro.
Gente do Palco
Teresa Mascarenhas
Trabalho de Pesquisa, 1997, Edições Golfinho
INTRODUÇÃO
Já lá vai o tempo (mas eu ainda me lembro) em que as raparigas se arranhavam e
arrancavam os cabelos umas às outras por causa do John Lennon e do Paul
McCartney. Ainda hoje há quem pague um milhão de dólares por umas peúgas de
Elvis Presley.
O mundo do espectáculo, e principalmente o da canção, cria em volta dos seus
mais famosos interpretes um clima, uma aura de mistério que os torna mais
desejados ainda do grande público. Na maioria dos casos ninguém sabe onde moram,
como vivem, e muito menos como pensam os grandes nomes do espectáculo-canção.
Em Portugal o fenómeno não difere muito do que se passa no resto do mundo. Nos
anos 60 as raparigas portuguesas ouviam António Calvário e ficavam a sonhar com
príncipes encantados bem educados e românticos, (Ai ai...) tal como nos anos 90
ouvem Pedro Abrunhosa e ficam a sonhar com príncipes encantados contestatários e
sexuados. (UAU!)
A sociedade mudou, mas o que não mudou foi o interesse do público em relação aos
grandes mitos da canção.
E afinal, o que sabemos nós sobre eles?
Se o leitor comum for ao cinema ou ao supermercado, e de repente, por um
bambúrrio de sorte, der de caras com Dulce Pontes, talvez lhe ofereça um
sorriso, talvez lhe peça um autógrafo, mas certamente não lhe irá perguntar como
vive o seu dia a dia, e muito menos o que pensa do "totonegócio" ou da
regionalização.
Evitando obviamente as questões políticas demasiado específicas, convidei alguns
nomes sobejamente conhecidos do público a falar um pouco de si próprios,
tentando que as entrelinhas revelassem um pouco da sua verdadeira personalidade,
que é aquilo que geralmente as entrevistas comuns não fazem.
A grande dificuldade que se colocou foi ao nível da escolha. A primeira tentação
foi seleccionar os melhores. Mas eles são muitos, têm estilos muito próprios e é
difícil, muito difícil, decidir que este é melhor ou é menos bom do que aquele.
Assim, o que fiz foi passar por cima das minhas preferências pessoais, e
entrevistar pessoas tão díspares quanto possível, de forma a dar uma
"amostragem" completa ou pelo menos bastante vasta daquilo que é neste
momento em Portugal o panorama da canção ligeira nas suas vertentes mais
significativas.
É este o objectivo deste livro. Revelar um pouco o que são, enquanto pessoas, os
grandes mitos do nosso espectáculo-canção.
Muitos nomes de grande mérito ficaram de fora, por falta de espaço apenas, e com
muita pena minha. Reuni no entanto onze depoimentos que me parecem bastante
representativos.
Pedro Abrunhosa. Um pedaço de mau caminho. Inteligência e charme por todos os
poros.
Helena Vieira, uma cantora lírica perfeitamente despida de poses de primadona,
simpatiquíssima e cheia de sentido de humor, extremamente preocupada com o
futuro da Ópera em Portugal, mas que também não vê razões para não cantar o que
quer que lhe apeteça.
Zé Pedro, guitarrista "que às vezes também canta umas coisinhas", dos
Xutos e Pontapés, a banda Rock que tem resistido a todas as intempéries.
Alexandra, que começou a cantar por acaso e hoje faz espectáculos pelo país
inteiro.
Paulo de Carvalho, que me confidenciou que a juventude pode ser por vezes de uma
extrema crueldade para com os mais velhos.
Marco Paulo, um cantor que já não tem onde pôr mais Discos de Ouro e de
Platina.
Quim Barreiros, um homem corajoso e frontal, que assume tudo, inclusive a
"música pimba".
Maria João, a menina bonita do Jazz, que me surpreendeu pela simplicidade e pelo
encanto pessoal, e que é um exemplo admirável daquilo que a coragem e a força de
vontade podem conseguir.
Miguel Ângelo, vocalista dos Delfins, que milhões de jovens adoram como a um
deus, e que se me revelou acima de tudo um grande profissional do espectáculo.
Dulce Pontes, a nostalgia portuguesa feita voz.
Para que daqui a uns anos as pessoas conheçam um pouco estes nossos mitos da
canção dos dias de hoje, mas também para que os jovens portugueses (milhares
deles) que cantam todos os dias debaixo do chuveiro ou para um karaoki, a pensar
como seria bom cantar em cima de um palco, saibam um pouco como é o sabor da
fama, mas saibam também que as grandes carreiras se fazem com algum talento,
alguma sorte, mas sobretudo com muito trabalho e ultrapassando grandes
dificuldades.
O Mundo da Moda
Teresa Mascarenhas
Trabalho de Pesquisa, 1997, Edições Golfinho
INTRODUÇÃO
Objecto das críticas ferozes de alguns, de uma obediência cega por parte de
outros, não se pode negar a importância da moda enquanto fenómeno social.
Retrato de sociedades e mentalidades através dos tempos, a moda tem sido o
reflexo de fomes, guerras e convulsões sociais, como o tem sido de tempos de paz
e prosperidade.
Quer a sigamos quer não, somos forçados a reconhecer a inevitabilidade social da
moda nos dias de hoje. Ela assegura milhões de postos de trabalho e é o centro
de negócios que envolvem cifras astronómicas e fazem girar o mundo. Só isso já
justificaria este livro.
Foi um pouco nessa perspectiva que abordei alguns dos mais conceituados
profissionais da moda do nosso país. Entrevistei alguns dos costureiros mais
famosos: Augustus, o encantador Augustus, o costureiro que conhece como ninguém
o coração das mulheres, a extraordinária Ana Salazar, que alguns contestam mas a
quem ninguém pode negar um mérito enorme enquanto pioneira da moda em Portugal,
o simpatiquíssimo Luís Barbeiro, o enfant terrible da moda portuguesa de
vanguarda, e Kina, a criadora de uma moda um tanto atrevida. Entrevistei Sofia
Aparício, a Top Model do momento, que me surpreendeu pela simpatia e pela
simplicidade, e outros modelos conceituados: Marluce, lindíssima, mas que
praticamente já abandonou as passerelles, Pedro Lima, um jovem que saltou das
piscinas olímpicas para as passerelles, e daí para os écrans de televisão, Tó
Romano, um nome sobejamente conhecido, que foi capa da Rakan, e é hoje
proprietário de uma das mais prestigiadas agências de modelos do país, e Domi,
um jovem cabeleireiro a transbordar de talento que se define a si próprio como
um escultor de cabelos. O menino por quem grandes vedetas se degladiam.
A minha preocupação fundamental ao longo destas entrevistas foi pedir a cada um
que expusesse os seus pontos de vista pessoais, como aliás tem sido feito desde
o primeiro volume desta colecção, mas sobretudo fornecer algumas páginas de
orientação aos jovens, rapazes e raparigas, que sonham com a carreira de modelo
ou de estilista. Explicar-lhes como funciona toda a "engrenagem",
mostrar-lhes os aspectos positivos deste mundo da moda, mas também os negativos,
que não são poucos, para que no dia em que tiverem de tomar a decisão da sua
vida estejam conscientes de que são carreiras que de repente podem fazer deles
verdadeiras estrelas, mas que têm também os seus bastidores, o seu reverso, por
vezes bastante sombrio.
Senhoras e senhores, vai começar o desfile.
Like a Prince
Marie Chantal de St Etienne
Condessa de Chateauroux
Manual de Boas Maneiras
sinopse
Mais de 500 "dicas" úteis sobre a forma de você estar, e se
comportar... como um verdadeiro Príncipe.
excerto
A pontualidade é uma coisa básica. Nunca deixe ninguém "pendurado" à
sua espera. Se você tem um encontro, seja uma reunião de trabalho, seja o que
for, pode atrasar-se cinco minutos. Dez minutos podem ser desculpáveis. Um
quarto de hora é o limite. Mais do que isso é verdadeira má criação.
Mesmo que você seja uma pessoa importante, que combinou alguma coisa com o mais
modesto dos seus empregados, seja pontual.
Se você vai encontrar-se com alguém, assegure-se de que não há possibilidade de
mal entendidos relativamente ao local, dia e hora.
Sempre que fala com alguém, respeite a chamada "distância da boa
educação", ou seja, cerca de 30 cms.
Um gentleman tira sempre o chapéu e as luvas para cumprimentar uma senhora.
Quando duas pessoas se cruzam, deve ser sempre a senhora a cumprimentar o homem,
ou a pessoa mais importante a cumprimentar a menos importante.
Se você vai na rua com uma senhora de idade, deve sempre oferecer-lhe o braço,
que ela poderá aceitar, ou não. É um privilégio dela. Algumas senhoras de idade
gostam de aceitar o braço de um homem, outras, mais independentes, preferem
caminhar sozinhas.
Beijar a mão às senhoras é um hábito que caiu em desuso. É no entanto um gesto
de grande elegância, e pode ajudá-lo a conquistar a simpatia da mulher do seu
patrão, ou da sua futura sogra.
O homem põe a mão esquerda atrás das costas, inclina-se um pouco, com a mão
direita pega na mão direita da senhora, levanta-a e aproxima-a da sua própria
cara, sem no entanto lhe tocar. Não beija realmente a mão da senhora. Irá cair
no ridículo se o fizer. Reserve isso para encontros românticos.
Go for it!
Jane K. Philips
50 "dicas" sobre a arte da sedução
sinopse
Alguns truques muito bons para conquistar o homem ou a mulher dos seus sonhos.
excertos
Depois, quando ele a convidar para jantar, conte-lhe como é uma mulher forte,
madura e independente, mas diga-lhe isso com a voz de um passarinho (mesmo que
haja um tigre à solta dentro de si...) A maioria dos homens vão pensar:
"Meu Deus, que mulher mais gira, mais engraçada! Ela julga-se forte e
madura, e afinal do que ela precisa é de um homem forte e maduro como eu!"
Diga-lhe que é um óptimo cozinheiro, convide-a para jantar em sua casa, ponha
qualquer coisa no forno, deixe queimar, deixe-se corar como um rapazinho e
leve-a a jantar ao melhor restaurante da cidade. As mulheres adoram homens
desastrados e românticos.
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